Aos dezoito anos, Adile Sultan não atravessou o mar para se tornar uma princesa portuguesa.
Ela atravessou o mar para lembrar a Portugal que Constantinopla também sabia declarar guerra.
Filha favorita de Mahmud II, criada entre os corredores perfumados do harém imperial, Adile cresceu cercada por ouro, seda, poesia, fé e silêncio. Desde pequena, aprendeu que uma mulher podia não empunhar uma espada e, ainda assim, mover destinos inteiros com uma carta, um véu, um olhar ou uma palavra não dita.
No mundo, chamavam aquilo de delicadeza.
Em Constantinopla, chamavam de sobrevivência.
Quando a ameaça de Napoleão paira sobre Portugal, a Casa de Bragança aceita uma aliança impossível com o Império Otomano, a potência mais temida do mundo. Mas o tratado não vem apenas em tinta, selos e promessas. Ele vem em forma de uma menina de olhos escuros, roupas otomanas, fé inegociável, baús de joias, criadas, eunucos, cavalos, um tigre-de-bengala chamado Ateş e um macaquinho ladrão chamado Fındık.
A corte esperava uma noiva.
Recebeu uma fronteira.
Adile não se converte.
Não muda de nome.
Não abandona seus vestidos.
Não dobra a cabeça para caber melhor na imaginação de ninguém.
E, enquanto Portugal tenta entender como acomodar uma Sultan dentro de seus palácios, Adile aprende que há muitos modos de ser prisioneira. Algumas jaulas são feitas de ferro. Outras, de protocolo, religião, casamento e expectativa.
Mas Adile foi criada para sorrir diante de portas fechadas.
E abrir todas elas por dentro.
Entre o Bósforo e o Atlântico, entre a coroa e o crescente, entre a fé e o dever, uma princesa otomana descobrirá que atravessar o mar é fácil perto de sobreviver a uma corte que deseja renomeá-la.
Porque Adile Sultan pode ser jovem.
Pode ser bela.
Pode ser uma noiva.
Mas ninguém deveria confundir seda com fraqueza.
E ninguém deveria esquecer que até o tigre mais quieto ainda tem dentes.
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