Na vila de Assunção do Alto, encravada na dobra de uma serra que a neblina raramente abandona, ninguém sabia que existia uma cripta sob a Igreja de São Ceslau - a construção mais antiga da região, que um bispo do século XVII ordenou, sem explicação, que jamais fosse tocada, melhorada ou examinada.
Quando o piso da nave cede e revela uma escadaria impossível, a Cúria envia a Irmã Clara, restauradora de patrimônio sacro, para avaliar o dano antes que o resto do chão desabe sobre os fiéis. Mas há algo errado com São Ceslau. Cada pedra está aprumada, e ainda assim o conjunto é impossível de olhar sem desconforto. Nas paredes da cripta, uma inscrição feita apenas de ângulos - uma escrita que não foi feita para ser lida, mas pensada uma única vez e nunca mais esquecida.
Ao lado do padre Anselmo, que carrega uma culpa de dezenove anos, e da idosa Irmã Doroteia, cujos delírios são a descrição mais precisa do que ninguém deveria ver, Clara descobre a verdade enterrada sob a igreja: a cripta não guarda um morto. Ela contém uma proporção. Um desalinhamento deliberado, erguido por um culto pré-cristão de construtores-geômetras para aprisionar algo anterior à matéria e à luz - e os ritos da Igreja não passam de técnicas de contenção herdadas e esquecidas.
O horror não está em profanar. Está em consertar. Cada pedra que a restauração "corrige" desfaz o erro que mantinha a porta fechada. E do outro lado, paciente, sem olhos e sem pressa, algo que já venceu uma vez começa, enfim, a responder.
Para re-selar o que despertou, alguém terá de aprender a linguagem dos ângulos - e pagar o preço que os construtores antigos sempre souberam ser inevitável: quem conserta, paga.
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