EPÍLOGO
Naquela casa, ninguém pronunciava o nome de Dante Valença em voz alta quando ele não estava por perto.
Não por respeito.
Por medo.
Dona Cida trabalhava para a família Valença havia quase trinta anos. Tinha visto Dante crescer, quebrar coisas, apanhar do pai, ser criado pela mulher que ele chamava de mãe e, principalmente, aprender cedo demais que naquele mundo bondade era uma fraqueza que custava caro.
Naquela noite, ela estava arrumando a mesa quando ouviu os carros entrando no portão.
Parou.
Olhou para Helena, que estava sentada no outro lado da sala.
- Ele chegou.
Helena não respondeu.
Dona Cida abaixou os olhos.
Ela conhecia aquele silêncio.
Era o mesmo silêncio que tomava a casa sempre que o menino voltava diferente de como tinha saído.
Só que Dante já não era menino.
O garoto que um dia corria pelos corredores daquela casa agora era conhecido em todo o morro por um nome que ninguém ousava questionar.
Mão de Ferro.
E naquela noite, quando a porta se abriu e ele entrou acompanhado dos seus homens, ninguém precisou perguntar o que tinha acontecido.
O sangue na camisa respondia.
Dona Cida apertou o pano entre os dedos.
Olhou para Helena.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu pena daquela menina.
Porque ela sabia uma coisa que Helena ainda não entendia.
Dante Valença não tinha nascido para ser um homem comum.
Ele tinha nascido dentro do pecado.
Foi criado para herdar um império.
E, quando finalmente colocasse as mãos no trono...
ninguém sairia ileso.
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