Lendas de Vó - O Livro dos Contos
43 capítulos Concluída Era um dia frio; o vento parecia querer machucar. Cheguei em casa logo após o sepultamento de minha avó Maria e me senti uma estranha em meu próprio lar. O ambiente ecoava uma paz intrusa e um silêncio constrangedor.
Eu não conseguia sentir nada.
Acontece que aquela insensibilidade me assustou imensamente, pois eu era uma das netas mais apegadas a ela. Com isso em mente, caminhei por aquela casa enorme e sombria, sentindo-me perdida, sem saber em qual cômodo me esconder. Escolhi a sala; o sofá nunca me pareceu tão convidativo. Minha mente precisava desesperadamente de barulho, fosse qual fosse, então liguei a televisão. Passava "A Lista de Schindler", entretanto, minha alma gélida não se comoveu com a história triste do filme. Foi quando adormeci.
Enquanto sonhava, me vi em casa, mas ela estava acolhedora e iluminada pelo sol. A mesa da sala de jantar exalava a fragrância de lavanda do lustra-móveis, que se misturava ao cheiro de bolo de fubá recém-tirado do forno.
Na sala de estar, sentada, quieta e concentrada na notícia que passava na TV, lá estava ela: a vó Maria. Com seu rosto idoso e suave, usando o lenço branco de sempre sobre os cabelos finos e grisalhos, ela bordava um pano de prato enquanto acompanhava o jornal da tarde. Passado algum tempo, ela se levantou, colocou a caixinha de costura e o trabalho inacabado sobre o sofá, olhou para mamãe e disse:
- Tenho que ir!
Acredite ou não, daquela sala de jantar, o sonho nos transportou para o cemitério. Entramos e, pelas vielas estreitas, seguimos em paz e lentamente, até chegarmos ao túmulo que tinha a foto da vovó. Eu, abruptamente e sem pensar, disse:
- Vou com a senhora!
Ela respondeu com amor, mas decidida:
- Agora não. Volte e viva.
Acordei com ânsia de vômito. Eu sabia que, agora, era minha vez de escrever nossa história. Estando pronta ou não.
DA 2021-006074