O Retrato da Viúva

O Retrato da Viúva

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WpMetadataReadComplete Fri, Jan 15, 2016
Essa história é contada por meu avô. Eu a encontrei no meio de suas cartas, uns dias antes de me mudar. Me lembro dela desde criança, quando escutei da própria boca dele, numa noite fria. A noite mais longa de minha vida. Partes dela parece que ainda não acabaram. Era um dia quente. Meu avô Antônio e seus dois amigos, Rafael e Bruno, jogavam bola perto do velho sobrado verde no final da rua. Um vento mais forte e a bola de Bruno cai dentro do terreno de dona Lina, uma velha viúva que, de tão pouco saía, quase virou uma lenda entre os vizinhos. Não parecia querer saber de ninguém, e ninguém parecia querer saber dela. Até aquele dia. Uma aposta inocente entre amigos. Uma brincadeira estúpida que envolvia roubar algo da velha casa verde. Tudo começou assim. Meu avô sabia desde o começo que era um grande erro. De certa forma, fora o último. Aquilo não era certo, e não tinha como acabar bem. Mas nada do que aconteceu foi por sua culpa. Sempre fez questão de deixar isso bem claro. Os assombros daqueles dias acompanharam meu avô até a sua morte. E agora me acompanham também. Vieram me visitar novamente quando encontrei o velho caderno, onde ele despejou em forma de prosa os pesadelos acumulados por uma vida inteira. É algo que ele precisava compartilhar com alguém. E eu o compreendo muito bem. Por isso vim aqui fazer o mesmo. Aproveitem a viagem. Em memória de meu avô, Antônio Sebastião da Veiga. Que Deus o tenha em bom lugar.
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  • ❦Poɖɛʀɛֆ Oƈʊʟȶoֆ 1

Quando não se conhece nada além de insegurança e abandono a última coisa que quer é ficar próximo de pessoas. Pelo menos é assim que eu penso. Katherine Bolton, a criatura desprezível. A suposta loba que cheirava a humanidade e não a ser sobrenatural. O ser maligno que nasceu erroneamente e matou a mãe durante o parto. A criança que mereceu ser abusada pelo pai até o dia em que não aguentou e acabou matando-o em um surto. A assassina A filha do demônio Criatura pertencente ao inferno Ser que deu errado A indigna de ser amada Aquela que merece sofrer Me conheciam por vários nomes. Até mesmo tinham aqueles que me conheciam como "aquela que não pode ser citada". Depois de meses passei a ouvir tudo sem chorar Depois de anos passei a não me importar Depois de décadas aprendi a ignorar e lançar olhares malditos E enfim, depois de séculos eu decidi desaparecer Bom é isso que sou: ninguém. Me tornei as histórias que contam aos filhos antes de dormir. Me tornei a história de terror que contam ao redor da fogueira. Me tornei um mito, uma lenda que passa de alcateia em alcateia Lobos não se lembram de meu rosto, apenas dos sentimentos que os proporcionei. Humanos não sabem de minha existência enquanto aldeias veem apenas as marcas que deixei no passado Ninguém se lembra de mim. Ninguém se lembra de meu nome. As pessoas são cruéis e se lembram apenas do medo, da repulsa e da raiva Elas me temem. Eu as odeio. Capa feita pela maravilhosa: @amonimams2121

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