Um arranhão, à porta, acorre, em alta madrugada. Você está sozinha em casa e, de há muito, estava dormindo. Você não sabe quanto tempo demorou, entre o seu despertar e o segundo ruído, na porta de entrada. Aquele estalo acaba lhe arrancando de um sono que, surpreendentemente, parecia mais tranquilo do que você imaginou que seria, tendo em vista a primeira noite que passa, na casa nova. O corpo dói quando você se levanta, como se rangessem as dobradiças de uma estrutura antiga, mas você não sabe se é culpa da exaustão da mudança, ou as marcas do acidente de automóvel que lhe roubou o marido e o filho de doze anos.
Você se levanta, sentindo a cabeça latejar, ao mesmo instante que o hálito denuncia a meia garrafa de uísque vencida, há poucas horas. Veste as pantufas que ganhara de presente de dia das mães, assim como o roupão que seu antigo marido adorava que você tirasse, para ele.
- Quem é? - você indaga, enquanto derrota, passo à passo, aquele corredor com cheiro de tinta fresca e fotografias que lhe encaram com olhos que somente existem agora na lembrança e em uma cova recente.
Você torna a questionar pelo mentor daquela visita em ocasião e situação inadequados, mas o silêncio persiste em lhe responder. Inclusive, você chega à evocar a lembrança do Doutor Lima, aconselhando-a a entrar em contato com um psiquiatra, de modo a não deixar o trauma se apoderar de sua vida. "Talvez, tivesse sido uma boa ideia", você chega a pensar. Contudo, logo joga para longe tal pensamento, porque sabe que, com a exposição à um profissional, podem surgir detalhes que você não quer - sequer pode - encarar: a culpa.
Você chega até o pé da porta. Mais uma vez, pede pelo responsável, supostamente, do lado de fora. E, sem obter resposta, mira pelo olho mágico, mas somente a PENUMBRA lhe encara, de volta.
Série - A Substituta
Helena sempre soube esconder suas dores por trás de um sorriso sereno e uma postura firme. Criada entre silêncios e expectativas, aprendeu cedo a não depender de ninguém. Inteligente, sensível e discreta, ela carrega uma força que poucos percebem à primeira vista. Por fora, é calma como a superfície de um lago; por dentro, é um vendaval de sentimentos contidos.
Seu passado é um mistério que ela prefere não revisitar. E entre as marcas que a vida lhe deixou, existe uma que nunca cicatrizou: o amor que precisou abandonar. Desde então, Helena se fechou para o mundo, decidida a não permitir que ninguém mais ultrapassasse suas barreiras.
Mas mesmo os corações mais bem protegidos podem ser invadidos. E o dela, embora calejado, ainda pulsa por algo que talvez nunca tenha deixado de existir.
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Arthur sempre acreditou que sabia o que era amor - até que a vida o ensinou o peso da ausência. Melhor amigo de Helena desde a juventude, ele nunca percebeu o quanto significava para ela... ou talvez tenha preferido não enxergar. Apaixonado por Laura, a prima de Helena, Arthur seguiu o caminho que lhe parecia certo, mesmo sem entender o vazio que se instalou quando Helena partiu sem deixar rastros.
Na noite em que ela se declarou, algo mudou - mas ele não teve tempo, nem coragem, de lidar com aquilo. Sete anos se passaram desde então, marcados por silêncios, saudade contida e a perda irreparável de Laura, sua esposa. Quando Helena reaparece no velório, fria e distante, Arthur sente o peso de tudo o que foi deixado para trás.
Agora, entre lembranças não ditas, culpa e sentimentos confusos, Arthur precisa encarar o passado que nunca teve coragem de enfrentar - e a mulher que talvez tenha amado sem perceber.