Um arranhão, à porta, acorre, em alta madrugada. Você está sozinha em casa e, de há muito, estava dormindo. Você não sabe quanto tempo demorou, entre o seu despertar e o segundo ruído, na porta de entrada. Aquele estalo acaba lhe arrancando de um sono que, surpreendentemente, parecia mais tranquilo do que você imaginou que seria, tendo em vista a primeira noite que passa, na casa nova. O corpo dói quando você se levanta, como se rangessem as dobradiças de uma estrutura antiga, mas você não sabe se é culpa da exaustão da mudança, ou as marcas do acidente de automóvel que lhe roubou o marido e o filho de doze anos.
Você se levanta, sentindo a cabeça latejar, ao mesmo instante que o hálito denuncia a meia garrafa de uísque vencida, há poucas horas. Veste as pantufas que ganhara de presente de dia das mães, assim como o roupão que seu antigo marido adorava que você tirasse, para ele.
- Quem é? - você indaga, enquanto derrota, passo à passo, aquele corredor com cheiro de tinta fresca e fotografias que lhe encaram com olhos que somente existem agora na lembrança e em uma cova recente.
Você torna a questionar pelo mentor daquela visita em ocasião e situação inadequados, mas o silêncio persiste em lhe responder. Inclusive, você chega à evocar a lembrança do Doutor Lima, aconselhando-a a entrar em contato com um psiquiatra, de modo a não deixar o trauma se apoderar de sua vida. "Talvez, tivesse sido uma boa ideia", você chega a pensar. Contudo, logo joga para longe tal pensamento, porque sabe que, com a exposição à um profissional, podem surgir detalhes que você não quer - sequer pode - encarar: a culpa.
Você chega até o pé da porta. Mais uma vez, pede pelo responsável, supostamente, do lado de fora. E, sem obter resposta, mira pelo olho mágico, mas somente a PENUMBRA lhe encara, de volta.
Esta é uma história baseada em fatos reais, onde relato minha convivência com minha mãe e um período marcante da minha vida em um lugar sujo, sombrio e miserável - que chamo de "calabouço".
Desde o meu nascimento, passo pela infância, juventude e idade adulta, contando a dura e sofrida caminhada de Dona Laura, minha mãe. Uma mulher que abriu mão de inúmeras oportunidades para defender e proteger seu filho.
Narrando relacionamentos, convivências, comportamentos e a personalidade dessa mulher forte, exponho tudo o que Dona Laura enfrentou: discriminações, decepções, angústias e perdas. Com o tempo, compreendi o que uma mãe é capaz de fazer por amor, lutando até os momentos mais críticos da velhice.
Ao observar sua trajetória, me vi submetido a situações que jamais imaginei suportar. Conto a história de um adolescente simples, humilde, inicialmente irresponsável - voltado apenas aos entretenimentos e amizades. Um jovem sem compromisso, que acabou perdendo grandes oportunidades, mesmo ainda tão novo.
Revelo como aprendi a lidar com a extrema escassez e miséria, vivendo em um ambiente violento, tomado por bebidas e drogas. Me perguntava todos os dias: "Como sair daqui?". Às vezes, até me conformava em morrer ali - fosse pela violência, pela fome, por uma doença qualquer ou, quem sabe, pela velhice consumida pelo alcoolismo.
Espero que tenham uma ótima leitura, que consigam mergulhar um pouco nesse universo que vivi e que, de alguma forma, absorvam a mensagem real e humana que esta história tem a oferecer.
Boa leitura.