PENUMBRA

PENUMBRA

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WpMetadataNoticeLast published Sat, Nov 12, 2016
Um arranhão, à porta, acorre, em alta madrugada. Você está sozinha em casa e, de há muito, estava dormindo. Você não sabe quanto tempo demorou, entre o seu despertar e o segundo ruído, na porta de entrada. Aquele estalo acaba lhe arrancando de um sono que, surpreendentemente, parecia mais tranquilo do que você imaginou que seria, tendo em vista a primeira noite que passa, na casa nova. O corpo dói quando você se levanta, como se rangessem as dobradiças de uma estrutura antiga, mas você não sabe se é culpa da exaustão da mudança, ou as marcas do acidente de automóvel que lhe roubou o marido e o filho de doze anos. Você se levanta, sentindo a cabeça latejar, ao mesmo instante que o hálito denuncia a meia garrafa de uísque vencida, há poucas horas. Veste as pantufas que ganhara de presente de dia das mães, assim como o roupão que seu antigo marido adorava que você tirasse, para ele. - Quem é? - você indaga, enquanto derrota, passo à passo, aquele corredor com cheiro de tinta fresca e fotografias que lhe encaram com olhos que somente existem agora na lembrança e em uma cova recente. Você torna a questionar pelo mentor daquela visita em ocasião e situação inadequados, mas o silêncio persiste em lhe responder. Inclusive, você chega à evocar a lembrança do Doutor Lima, aconselhando-a a entrar em contato com um psiquiatra, de modo a não deixar o trauma se apoderar de sua vida. "Talvez, tivesse sido uma boa ideia", você chega a pensar. Contudo, logo joga para longe tal pensamento, porque sabe que, com a exposição à um profissional, podem surgir detalhes que você não quer - sequer pode - encarar: a culpa. Você chega até o pé da porta. Mais uma vez, pede pelo responsável, supostamente, do lado de fora. E, sem obter resposta, mira pelo olho mágico, mas somente a PENUMBRA lhe encara, de volta.
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Ela o conheceu na infância, quando ainda eram crianças despreocupadas vivendo suas primeiras experiências. Ele, um garoto marcado pela perda precoce da mãe, e ela, uma menina que cresceu ouvindo de sua própria mãe o desejo de que um dia fossem mais do que amigos. O tempo passou, e os dois tomaram rumos diferentes, mas o destino parecia decidido a entrelaçar suas vidas novamente. No último ano do ensino médio, o reencontro aconteceu. Reconheceu-o por uma velha fotografia, e a conexão entre eles foi imediata. Quando a pandemia chegou, a distância física não foi capaz de afastá-los. Entre chamadas e mensagens diárias, criaram uma cumplicidade que crescia a cada dia. A paixão começou ali, mesmo que ele, inicialmente, não estivesse pronto para assumir um relacionamento. Um ano e quatro dias após a última conversa, ele a procurou novamente, de longe, para surpreendê-la com um pedido de namoro. A partir daquele momento, ela teve certeza de que ele era o grande amor de sua vida. Os dois compartilharam momentos inesquecíveis - festas, datas comemorativas, aniversários - e ela se viu transformada, uma mulher mais confiante e cheia de sonhos. Mas a vida deu uma reviravolta dolorosa. Ele partiu para a faculdade, e, mesmo diante da saudade, ela planejou mudar-se para a cidade dele, pronta para iniciar uma nova etapa ao lado do homem que tanto amava. Porém, na véspera de sua partida, ele a surpreendeu novamente, mas desta vez com um término inesperado. Dias depois, ela viu uma foto dele com outra pessoa, e seu coração foi despedaçado. Ainda assim, o amor permaneceu. Em silêncio, ela deseja que ele realize todos os sonhos que um dia imaginaram juntos: conhecer a Itália, dar à primeira filha o nome da mãe dele, e viver uma vida plena e feliz. Embora não estejam mais juntos, ela mantém a esperança de que, em outra vida, seus caminhos se cruzem novamente. Até lá, ela continua a amá-lo, mesmo de longe.

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