"...e foi ali, entre a dor e o impossível, que eu nasci de novo."
O silêncio da noite não era normal.
Não naquele lugar.
Não naquele instante.
O céu sobre Union estava sem estrelas, como se o universo tivesse decidido fechar os olhos diante do que estava prestes a acontecer. Um garoto corria - ou algo parecido com correr. Seus pés mal tocavam o chão, e o som da cidade desaparecia atrás dele como se o tempo estivesse cedendo.
Ele sangrava.
Não por fora, mas por dentro. O tipo de ferida que não se vê com os olhos, apenas se sente no vazio que se abre no peito.
Ele havia falhado.
As mãos tremiam, mas não pelo medo. Era como se carregassem algo que o corpo ainda não compreendia. Uma energia que vibrava entre os dedos, entre os ossos, entre as batidas aceleradas do coração.
O mundo parecia em ruínas. Mas ele sabia - ainda não tinha acabado.
O cheiro de fumaça, concreto rachado e eletricidade pairava no ar. O som distante de sirenes competia com sussurros que não vinham de lugar algum. Ele olhou para trás uma última vez e viu o vulto. Uma figura coberta por sombras, olhos brilhando com algo entre o ódio e a obsessão. O nome escapava, mas o sentimento era nítido: aquele homem carregava a origem do caos.
Talvez um dia ele tivesse sido alguém comum. Talvez ainda fosse. Mas agora... era outra coisa.
Cody não sabia o motivo, mas o nome Gabriel queimava em sua mente como uma lembrança que não queria ser lembrada.
Ele se encostou em uma parede destruída e tentou respirar. O ar parecia pesado, mas o que o sufocava não era o calor. Era a dúvida. O peso de ter poderes que não pediu. De carregar memórias que não eram só suas. De ver pessoas que amava partindo - e outras chegando, inesperadamente, como luzes fracas no meio do caos.
E foi ali, entre a dor e o impossível, que ele sentiu.
Uma presença.
Olhos nos dele. Um toque. Uma voz.
Mas era real?
Não havia como saber.
Porque, naquele instante, nada fazia sentido.
E ainda assim,