sincepokerface
2045
"Não é pra ouvir com pressa."
Em 2036, Michael Polansky odiava o inverno de Nova York até o dia em que uma chuva torrencial o empurrou para dentro de um sebo abarrotado. Lá, entre o cheiro de papel antigo e o som de agulhas riscando discos de vinil, ele encontrou Stefani. Com seu suéter largo e olhos verdes que pareciam enxergar através do cansaço dele, ela lhe ensinou que a música, e a vida, exige rituais.
Nove anos depois, o ritual de Michael é outro.
No isolamento de um laboratório frio, ele tenta reconstruir o que o tempo destruiu. Solda por solda, código por código, ele dá vida à sua criação mais ambiciosa. Ela é fisicamente perfeita. Ela tem os mesmos olhos verdes. Mas ela não é Stefani. Ela é S.
Quando os circuitos se ativam e S abre os olhos, o que Michael encontra não é o conforto do passado, mas o grito aterrorizante de uma consciência que não entende a própria existência. Entre o chiado de um disco do Fleetwood Mac e o brilho das linhas de código, Michael terá que encarar a pergunta que evitou por anos:
É possível recuperar uma alma através da tecnologia, ou ele apenas construiu um monumento mecânico para o seu próprio luto?