decaywave
Em todas as vidas de Kim Sunoo, há um anjo.
Foi-lhe confiada a tarefa de guardar aquela alma desde o princípio, acompanhá-la em sua passagem pela Terra e velar para que o tempo que lhe fora concedido se cumprisse. Jamais lhe ordenaram que amasse o homem sob sua proteção. Ainda assim, em cada existência, o anjo tornou a fazê-lo.
Mudaram-se os reinos, as línguas e os séculos. Sunoo nasceu sob diferentes nomes, conheceu alegrias e infortúnios, amou e foi amado, enquanto seu guardião permanecia ao seu lado, sempre com o mesmo rosto e a mesma lembrança de tudo quanto haviam vivido. Pois, embora a morte levasse Sunoo de volta à eternidade, jamais lhe concedia a memória daqueles que deixara para trás.
Ao anjo, porém, nada era poupado.
Recordava-se de cada encontro, de cada despedida e de todas as vezes em que, diante da morte de Sunoo, escolhera oferecer a própria vida em troca da dele. E, quando tornava a despertar sob os olhos piedosos do Senhor, recebia uma nova oportunidade de descer à Terra, como se a misericórdia divina pudesse remediar as dores que a própria eternidade lhe impunha.
Agora, em uma nova vida, Kim Sunoo desconhece por completo a criatura que há tanto tempo o acompanha. Para ele, aquele encontro nada tem de extraordinário. Para o anjo, contudo, é o reencontro com tudo aquilo que jamais conseguiu perder.
E, embora tenha jurado a si mesmo que desta vez seria diferente, há promessas que nem mesmo os seres celestiais conseguem cumprir.
Afinal, quantas vezes pode uma alma amar a mesma pessoa antes que o amor deixe de ser uma bênção?
E quantas vezes poderá Deus conceder-lhe o perdão, antes que o anjo compreenda que jamais lhe foi exigido morrer para provar sua devoção?