goncaloribeiro9
Não sou eu que escrevo, é o tempo que em mim se demora,
Como um rio que esculpe o leito com a paciência do abismo.
Há uma geometria no caos que a alma, inquieta, ignora,
Um verso que se oculta no avesso de cada silogismo.
O mundo é um palimpsesto de vozes que o vento apaga,
Onde o ser se desdobra em sombras de um sol que não se vê.
Cada gesto é uma herança, cada silêncio é uma chaga,
E a verdade é o deserto que cresce entre o "eu" e o "você".
Não busques a luz na superfície polida do espelho,
Pois a clareza é o vício de quem não ousa mergulhar.
A vida é o vinho amargo que se torna, no fim, conselho,
E a morte é apenas a margem onde o mar se vai deitar.
Somos náufragos de um sentido que a razão não alcança,
Tecendo redes de vento para pescar a eternidade.
Mas no fundo do cálice, onde morre a esperança,
Resta o brilho terrível da nossa própria verdade.