clarissaalencourt
Não sei exatamente quando a sociedade passou a confundir voz ativa com tagarelice, mas desconfio que foi logo após alguém criar a expressão "só acho".
A partir daí, o mundo entrou numa espécie de febre opinativa, onde até o silêncio alheio é motivo de comentário.
Opinam sobre maternidade sem filhos.
Sobre política sem leitura.
Sobre livros que não leram e filmes que viram pela metade, enquanto mexiam no telefone.
E o mais curioso: muitos opinam não para contribuir, mas para existir.
Como se a ausência de barulho os tornasse irrelevantes.
Como se calar fosse sinal de fraqueza quando, na verdade, é muitas vezes prova de elegância.
Na minha época, quando não sabíamos algo, consultávamos um livro.
Hoje, consultam o próprio ego e publicam a resposta em vídeos de 15 segundos.
Não sou contra opiniões. Apenas me incomoda o excesso de certezas vindas de quem não hesita nem para conjugar um verbo.
Lorde Baudelaire, meu gato, por exemplo, nunca emitiu uma palavra e ainda assim é mais respeitado do que muito influencer de ideias líquidas.
Eu sigo aqui, entre livros, chá e o doce prazer de só opinar quando tenho mais do que um palpite: tenho argumento.
- D. Clarissa de Alencourt