luscaswriter
YBYTU.
Dizem que significa vento.
Mas há palavras antigas que perdem alguma coisa quando são traduzidas.
E outras que talvez nunca devessem ter sido pronunciadas.
Quando uma criança desaparece na Serra do Cipó, Jonas acompanha as buscas até uma clareira escondida pela mata. Lá, sobre uma laje negra, encontram o corpo do menino marcado por um símbolo que Jonas jura nunca ter visto.
O problema é que ele o reconhece.
Então a pedra respira.
E o vento diz seu nome.
Jonas.
Depois, outro:
Sariel.
A partir daquela manhã, suas próprias lembranças começam a apresentar falhas. Pessoas recordam acontecimentos de maneiras diferentes. Registros antigos não combinam. Cruzes aparecem onde não estavam. Há nomes que ninguém aceita pronunciar - e um rapaz que todos chamam apenas de Moço.
Quanto mais Jonas investiga, mais uma certeza se torna impossível de ignorar:
ele já esteve naquela serra antes.
Quando era criança.
Só não consegue lembrar o que aconteceu lá.
Nem como conseguiu voltar.
Entre palavras antigas, desaparecimentos esquecidos e histórias enterradas por gerações, Jonas descobrirá que a Serra do Cipó não guarda apenas mortos.
Guarda nomes.
Guarda memórias.
E guarda aquilo que foi preciso esquecer para continuar vivendo.
Porque algumas coisas não desaparecem quando ninguém mais se lembra delas.
Elas esperam.
E, quando o Ybytu volta a soprar...
começam a lembrar de você.
Há apenas uma regra que Jonas parece conhecer sem saber onde aprendeu:
Se o vento chamar seu nome uma vez, continue andando.
Se chamar duas, não procure de onde veio.
Se chamar três, não responda.
Mesmo que a voz seja de alguém que você ama.
Principalmente se for a sua.