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Às vezes a liberdade pode ser eletrizante e sensual.
- Diário de Ágata Costa.

Encaro o último boleto do presente que dei a Davi no dia dos namorados e sorrio, satisfeita. Estava esparramada no sofá azul que minha mãe idolatra, com um pé estirado no estofado enquanto o outro estava sobre a mesa de centro branca onde minha mãe só colocava um jarro de flores e revistas de cabelo.

Mamãe adentra a sala de estar com seu avental e põe a mão na cintura. Ela me encara com impaciência. Desvio os olhos do celular, ainda sorrindo de ponta a ponta. Seus olhos verdes são severos, e os cabelos cacheados estão em um coque volumoso, no topo de sua cabeça.

– Senta que nem moça, menina! Não pode sentar assim com essa camisola curta, estou vendo sua calcinha – ela caminha até mim e me bate com um pano de prato que cheira a sabão e água oxigenada. – Devo ter pecado muito para você não ser como eu – bufa, e eu encolho minhas pernas. – Você ficará idosa e ainda não aprenderá bons modos.

Reviro os olhos.

– Ai, mãe, dá um tempo – ela balança a cabeça em desapontamento. – Finalmente me livrei da última parcela do perfume! – Falo com animação, levanto-me do sofá, mostro o celular para ela e em seguida puxo-a para dançar uma valsa.

Mamãe ri de mim enquanto resiste ao sacolejado em que a sujeito.

A porta de madeira se abre e Daniel entra com a testa franzida.

– Você ganhou na loteria, tia Jô? – pergunta para minha mãe, que se afasta de mim.

– Ágata pagou a última parcela do presente que deu ao traste – ela pega o pano de prato que caiu no sofá.

– Depois de seis meses pagando um perfume caro para alguém que lhe retribuiu com um par de chifres... – ele leva a mão ao queixo e reflete, e sei que está apenas mostrando as unhas feitas e pintadas com um esmalte azul chamativo. – Deve comemorar mesmo, mas não assim né, Ags? – ele suspira impaciente e caminha até minha mãe para lhe beijar a bochecha. - Vamos sair e nos divertir!

– Não quero ir a festas, Dani – resmungo, sabendo o que queria ao realizar o comentário. Ele ignora.

– Se tivesse presenteado seu primo com aquele perfume, o dinheiro seria muito bem gasto. Afinal quem atura seu chororô e seus surtos sou eu, tia Jô e Nicole.

Não respondo. Apenas acompanho seus movimentos.

Meu primo é musculoso – inclusive, ele me tornou essa pessoa obcecada por musculação –  tem os cabelos lisos e castanhos, a pele bronzeada, e sempre está vestido pelo estilo criativo e hipster. Ele joga a bolsa pasta de cor preta sobre o sofá e senta-se no estofado, puxa a camisa xadrez que usava sobre a blusa verde e a joga em meu rosto. Bufo de impaciência e a jogo no chão.

– Meu Deus, eu criei dois bárbaros. – Mamãe fala, em choque. Rio junto de Daniel.

– Hoje nós vamos para uma casa noturna, tia, quer ir com a gente? – Dani estica a perna até mim e me empurra para que saia do meio da Tv.

– Não vou a lugar nenhum hoje. – Dou um tapa na sua perna e saio da sua frente antes que mamãe me arraste pela orelha como se ainda tivesse cinco anos de idade.

– Tenho que trabalhar durante toda a tarde no salão, e a noite também, não conseguirei ir. – Mamãe sempre nos acompanhava nas festas, e ao invés dela nos repreender a não exagerar, como todas as mães comuns, vai para beber e namorar. Eu era a única sóbria, sempre cuidava dela, de Daniel e Nicole. Ou seja, festa não é sinônimo de diversão para mim, é apenas uma oportunidade para dar uma de babá para três bêbados.

O advogado do meu inimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora