Sasuke
O vento noturno cortava meu rosto enquanto eu observava a cidade lá de cima.
As luzes pareciam pequenas demais, frágeis demais, como se qualquer sopro pudesse destruí-las, assim como aconteceu com a minha família.
Pressionei as unhas na minha nuca e as arrastei em cima do símbolo que estava riscado na minha pele, só o suficiente para sentir arder, o suficiente para lembrar, a dor ajuda a não esquecer.
Coloquei meu boné e guardei a lâmina no bolso.
De longe, a rua parecia tranquila, mas só por enquanto.
Fechei os olhos por um instante e como sempre ele veio primeiro, Itachi.
O rosto do meu irmão, o jeito como ele tocava minha testa enquando dizia para eu ficar fora de tudo.
Suas mãos tremendo no dia em que assumiu a dívida no lugar do nosso pai.
Ele nunca teve escolha, ninguém na nossa família teve.
A lembrança veio fragmentada, rápido e cruel como sempre:
Nosso pai sendo arrastado para fora de casa.
A porta batendo.
Nossa mãe chorando.
O barulho do tiro.
O silêncio que veio depois, pesado, cheio de tudo que não foi dito.
Respirei fundo e afastei as memórias como faço todos os dias.
Hoje à noite não era de lamentações, era sobre o que precisava ser feito.
Na calçada abaixo, o homem que eu observava acendeu um cigarro. Ele olhava ao redor constantemente, ele sabia que estava sendo procurado, só não sabia por quem.
— Por você, Itachi. — murmurei baixinho.
Desci do prédio como quem já conhecia cada sombra, cada atalho.
Meus passos eram calculados, silenciosos. Eu me preparava para isso há meses.
Quando virei a esquina, ele já não estava mais sozinho.
Um carro preto estava parado ao lado dele, dois homens conversavam com pressa. Reconheci um deles, ele estava lá na noite em que minha vida foi arruinada.
Meu sangue gelou e ferveu ao mesmo tempo, sua hora iria chegar.
Eu não sabia ainda como cada um desses homens morreria, mas sabia que eles iriam morrer, porque eles precisavam pagar.
Enquanto me aproximava, escondido pela escuridão, senti aquela certeza familiar percorrer meu corpo. A sensação de que finalmente eu tinha algum controle.
Por mais errado, distorcido ou perigoso que fosse, era o único pedaço da minha vida que ainda fazia sentido.
Os homens foram embora e um farol cortou a rua, alguém tinha chegado ou estava saindo, não importava.
O destino dele já tinha sido traçado desde o dia em que tocou na minha família.
Ele percebe tarde demais, primeiro o passo desacelerou, depois o olhar inquieto por cima do ombro.
Eu mantenho a mesma distância, nem perto demais para assustar, nem longe o bastante para desaparecer.
A rua não está tão movimentada, ele tenta parecer normal, mas não consegue.
Ele vira à direita, acelerado, eu acompanho sem correr, quem corre é quem tem medo.
Ele atravessa sem olhar, quase sendo atingido por um carro, alguém buzina, grita, ele não para.
Quando ele entra na rua lateral, o som muda, menos vozes, menas luz.
Agora ele corre, seus passos ecoam rápido demais, desorganizados, os meus aceleram levemente.
Ele vira outra esquina desesperado e o beco surge como uma promessa de fuga.
Na qual não pode cumprir. Não tinha saída.
Ele tropeça quando percebe que está sem saída.
O beco é estreito demais, escuto, as paredes altas com cheiro de lixo velho que se misturava ao medo.
Eu paro na entrada e ele finalmente se vira.
— Espera… — a voz dele falha quando se vira para mim — A gente pode conversar.
Começo a me movimentar e paro a poucos passos de distância.
— Eu faço qualquer coisa — ele diz, rápido demais. — Qualquer coisa, posso te dar dinheiro, drogas, o que você quiser.
Fico em silêncio, ele entende que falar não adianta.
— Você não precisa fazer isso — insiste. — Eu nem te fiz nada.
Inclino a cabeça de leve enquanto seus olhos percorrem o beco, procurando uma saída inexistente.
— Por favor… — a palavra sai quase como um soluço. — Eu tenho família.
Dou um passo à frente.
— Eu também tinha.
Ele engole em seco, seu corpo inteiro treme de medo.
E aquilo terminava ali, não quando o sangue caía no chão, mas no exato instante em que o olhar dele muda e percebe que não dá para correr de mim, que ele iria morrer.
O exato instante em que eu me tornei um assassino.
O exato instante em que tudo começou.
Ajoelho por um instante perto do corpo. Mentalizo o símbolo que sempre estava comigo e pego em seu sangue.
Marco o sinal onde precisa ser visto e saio do local indo pela direção contrária.
E foi assim que os meses foram se passando sem que eu percebesse.
Não como dias comuns passam, mas como algo que escorre pelos dedos.
Eu pesquisei, achei os nomes, estudei os rostos até decorar cada detalhe, vieram as perseguições silenciosas, as rotas repetidas, os horários previsíveis.
Eu aprendi a observar, aprendi a esperar, aprendi que toda vítima acredita estar segura até não estar mais, aprendi que não importa quantos morram, cada um fala algo diferente enquanto implora por sua vida.
Até que numa noite qualquer enquanto eu dormia, tranquilo, com o sono pesado, sem sonhos como sempre.
O estralo seco da porta me arranca da escuridão.
Antes que meu corpo reagisse, luzes invadiram o quarto. Sombras armadas. Vozes firmes. Armas apontadas para mim enquanto eu ainda estava deitado.
Não houve perseguição, não houve luta, não houve explicação.
Mãos me cercaram antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
E então a frase caiu sobre mim, rápida, fria, objetiva, como eu imaginei várias vezes que seria:
— Sasuke Uchiha, você está preso.
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Meu Inimigo, Minha Obsessão
FanfictionApós o pai de Sasuke ser demitido ele se envolve com pessoas perigosas, uma decisão que o leva à morte. A dívida deixada para trás recai sobre Itachi, que decide assumir o lugar do pai para proteger Sasuke e garantir que ele tenha uma vida normal...
