Capítulo 9

2.3K 232 11
                                        

Ainda sem lhe dar atenção, seguimos até a estação onde ele disse que me deixaria.

A escola do meu filho ficava dentro da comunidade o que me ajudava e muito, em se tratando de economia de tempo para tudo o que eu precisava fazer em relação aos seus cuidados. Seguimos pelas ruas, que no período da manhã eram tranquilas, a não ser por alguns jovens que saíam dos barzinhos ou até mesmo pessoas que iam também em direção a estação, mas antes mesmo que pudéssemos sair da favela, Douglas parou o carro próximo a um grupo de homens que eu sabia exatamente do proceder de cada um, principalmente do Rocha, que era o cara que cuidava das coisas por aqui.

— E aí seus viados?

— Fala filho da puta!

Depois do susto que levou, veio na janela ao lado de Douglas o cumprimentar. Não passou despercebido a encarada que me deu.

— Tá perdido por aqui a essa hora?

— Fui levar meu moleque na escola, conhecer o lugar.

— Resolveu essa parada aí? É à vera mesmo?

— É sim. Essa é a mãe dele. — Apontou para mim.

— Já vi por aí, ela é amiga daquele irmão que te falei pra chegar no teu bonde.

Ouvindo essas palavras, encarei Douglas e como resposta, ele fez o mesmo comigo. Não sei por quanto tempo ficamos assim, mas foi tempo o suficiente para colocar meus neurônios para pensar e saber que se era para Anderson trabalhar com ele, significava que era roubo, e se ele andava em carros de luxo, se vestia como vestia, não era qualquer tipo de roubo, o que me fez pensar na cama de gato em que estava deitando.

Eu estava muito ferrada, eu estava com uma arma mirada para a minha cabeça e nem estava sabendo. Via ali a minha cova aberta.

Tentando controlar meu emocional, encarei para frente e assim permaneci até que depois de mais algumas palavras, Douglas colocou o carro em movimento.

— Qual é a sua profissão?

— O que você tem com aquele cara?

Perguntamos ao mesmo tempo. E usando de sua autoridade, ele insistiu para que eu respondesse primeiro.

— Nada, ele é meu amigo.

— Ele saiu praticamente pelado do seu quarto.

— Ele dormiu na sala e de manhã, quando Lucas foi para a minha cama, ele também foi.

Espera, porque eu estava me justificando para esse homem? Não tínhamos nada, não lhe devia nada.

— Você não tem que se meter na minha vida particular.

— Só estou querendo saber quem cerca o meu filho.

Assenti e voltei ao meu silêncio, quando percebi que já estávamos na ponte.

Não passou despercebido que ele ignorou totalmente a minha pergunta e também ficou em silencio.

— Quanto menos você souber da minha vida, melhor para você e para o meu filho.

Foi o que falou, e depois segui para a minha vida, ou à busca dela. Para todos os efeitos trabalho em um escritório de advocacia e faço curso de extensão até as oito da noite. Ninguém realmente sabe para o que estou trabalhando e estudando, e como Douglas disse, é para o bem de todos que ninguém saiba o que faço da minha vida também.

**********

A semana passou com mais do mesmo, exceto nas noites em que Douglas me avisava quando não poderia vir ficar um tempo com Lucas, e assim se estendendo por algumas semanas.

Meu filho já estava aceitando a sua presença e estabelecemos uma rotina confortável e agradável para todos. Ele não invadia a minha privacidade, e nem eu a dele. A não ser quando cruzava com Anderson aqui em casa, aí eu percebia seu humor se transformar. Era tão intragável que não conseguia permanecer ao seu lado por nenhum segundo.

Conheci a sua mãe, Adriana. Diria que ela é uma ótima avó para o meu filho e me tratou muito bem, mas não passou despercebido a autoridade velada de boa simpatia que pairava sobre ela, sabe aquela pessoa que é melhor tê-la como amiga do que como inimiga? Percebi que ela é uma mulher bem próxima do filho, e isso explicou porque Douglas fez tanta questão de Lucas conhecê-la. Para o seu desespero, ela simpatizou com a minha cara, como ele mesmo disse, pois não me expulsou e não foi grossa em nenhum momento quando fui almoçar em sua casa num domingo desses.

Aparentemente, Douglas havia aberto toda a história com a mãe sobre a minha irmã. Não sei dizer se foi o certo ou não, mas isso fez com que ela não batesse com a porta na minha cara. Até mostrou o quarto que montou em sua casa para o meu filho e, diga-se de passagem, uma senhora casa. Seja lá o que essa família faz da vida, eles têm dinheiro. Muito!

Mas o que não pude deixar de notar, era no grande pai que Douglas se tornava para o meu filho. Em todos os pequenos gestos que ele fazia para com o meu bebê, e pode ser tolice, mas uma mãe sabe quando a ameaça respira perto da sua cria. Mesmo que tentasse manter a minha guarda erguida, em alguns momentos me pegava sorrindo com a interação dos dois. Lucas se dava bem com esse estranho apesar de ele querer tomar um lugar que antes era inteiramente meu.

VIDA REAL ( DEGUSTAÇÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora