POV S/N S/S
Existe um tipo de incômodo que não grita. Ele não se anuncia, não faz barulho, não pede atenção. Ele fica ali quieto, persistente cutucando a nuca, comprimindo o peito, deixando a respiração curta demais para ser ansiedade comum. É a sensação de que alguém próximo está escondendo algo. E pior: de que esse algo tem a ver com você. Era exatamente assim que eu me sentia.
Não era paranoia. Eu conhecia meu próprio corpo o suficiente para saber quando algo estava fora do lugar. O olhar que demora um segundo a mais. O toque que recua. O silêncio que pesa. A mudança de temperatura no ar quando alguém entra no mesmo ambiente que você. Por isso, decidi falar com a Gizelly.
A Gi sempre foi uma das pessoas com quem mais me conectei dentro da casa. Tirando o detalhe quase folclórico de já ter beijado o Prior, ela raramente errava comigo. Era intensa, impulsiva, mas honesta naquilo que sentia. Observadora demais para fingir. Direta demais para disfarçar. Um espelho torto de mim mesma.
Eu sempre fui transparente com quem merecia. Com o resto, aprendi a dosar. Aqui dentro, transparência demais vira munição.
Estava sentada no sofá da área externa, pernas recolhidas, observando a Rafa e a Manu rolarem na grama como se o mundo lá fora não existisse, quando senti aquele peso familiar. A sensação física de estar sendo observada. Levantei o rosto.
Bianca.
Ela me encarava com a cabeça levemente inclinada, sobrancelha arqueada, como quem tenta decifrar um quebra-cabeça.
— Vai ficar só me olhando ou vai vir falar comigo? - Gritei, tentando aliviar a tensão com humor.
Ela riu antes mesmo de se mexer, vindo na minha direção com passos tranquilos demais para alguém que estava claramente analisando tudo e sentou no meu colo.
— Tava observando o quanto você tá estranha. - Disse, sentando ao meu lado. - Já percebi que quando você pensa demais aparece uma ruguinha bem aqui.
Tocou o próprio meio das sobrancelhas, me imitando.
— Tá me conhecendo demais, senhorita.
E eu gostava disso. Gostava da naturalidade da nossa amizade, do silêncio confortável, da ausência de jogo entre nós. Desde o primeiro olhar, parecia que existia um acordo silencioso: não desgrudar. Não se abandonar. Aqui dentro, isso valia ouro.
— Fala logo. - Bianca disse, o tom mais baixo. - Se for o que eu tô pensando, a coisa é séria.
Suspirei, desviando o olhar por um segundo. Não por medo, mas por cansaço. Explicar sensações costuma ser mais difícil do que explicar fatos.
— Você percebeu a Gizelly estranha? - Perguntei. - Eu queria muito acreditar que é coisa da minha cabeça... mas não é. Hoje cedo, quando fui na cozinha, fiz o que sempre faço. E senti. Ela ficou rígida. Desconfortável. Como se estivesse se protegendo de mim. A Gi nunca faz isso.
Bianca fechou o rosto na hora. Não de surpresa. De confirmação.
— Não sei se é isso... - Começou, escolhendo as palavras com cuidado. - Mas ontem à tarde, quando você tava no quarto Vila, bem próxima da Flay... - Ela fez uma pausa curta. - Chamou atenção. Vocês nunca foram próximas assim. Muita gente reparou. Até eu.
Meu corpo reagiu antes da cabeça.
— Eu só conversei. - Respondi, firme. - Nunca tive briga com ela. Ela me puxou de canto, a gente conversou, riu. E desde então estamos tranquilas. Foi ela, inclusive, quem tocou no assunto de nós duas na festa.
Bianca respirou fundo.
— Mas, S/N... ou a Gi tá com ciúme... - Ela hesitou. - Ou alguém envenenou ela com coisa sua.
Foi aí que o nó apertou de verdade.
— O que falariam de mim, Bi? - Perguntei, sentindo o peito comprimir. - Quem conhece minhas coisas aqui é você e a Manu. Se falaram algo, inventaram.
E foi nesse instante que percebi. Prior. Encostado mais adiante, braços cruzados, me observando com um sorriso torto demais pra ser inocente. Não era sorriso de diversão. Era de quem assiste a algo que ajudou a provocar.
Levantei na hora.
— Onde a Gi tá?
— Academia. - Bianca respondeu, já em alerta. - Você vai falar com ela agora?
— Vou. - Me inclinei e segurei o rosto dela por um segundo. - Fica atenta. Se algo mudar ali dentro, vai atrás.
Não esperei resposta, levantei fazendo com que ela fizesse o mesmo já que estava no meu colo. Fui direto.
A academia estava silenciosa demais para aquele horário. Gizelly estava de costas, encarando o mural, braços cruzados, postura defensiva. Parecia menor do que o normal. Mais dura.
— Podemos conversar, Gi? - Perguntei, sentando à frente dela. Ela demorou a responder. Quando falou, mal me olhou.
— Você deve me achar uma otária, né? - A voz dela veio controlada. - Todo esse teatrinho de carinhosa... achou mesmo que ninguém ia perceber? Você usou todo mundo do nosso grupo pra se promover.
Meu estômago revirou.
— Eu não sei do que você tá falando. - Respondi, com cuidado. - Nunca escondi carinho. Nunca escondi intenção. Só porque eu não me exponho como você não significa que eu manipule ninguém. Quem te disse isso?
Ela se alterou.
— Quando eu vi você com a Flay, tudo fez sentido! - Disse, gesticulando. - Você vai onde convém. Passeia por grupos. Compra briga com os meninos pra manter personagem. Por quê, S/N?
Respirei fundo. Não para me acalmar, mas para não desistir.
— Se escuta, Gizelly. - Minha voz saiu mais baixa, mais firme. - Que ficha foi essa que caiu de repente? Eu tô com vocês desde o começo. Quem te falou isso quer me afastar de você. Se quer saber a verdade, pergunta pra mim. Só pra mim.
Ela se levantou de uma vez, como se ficar sentada a deixasse vulnerável.
— Eu achei que você fosse se apegar a alguém de verdade. - Disparou. - Mas vi que seu carinho era estratégia.
Aquilo doeu. Não como jogo. Como pessoa.
— É sério? - Levantei também. - Eu sempre te tratei bem. Nunca como peça. E sabe de uma coisa? Eu sei de coisas suas. E nunca usei isso contra você. Nunca questionei sua lealdade. Nunca te expus.
Houve uma hesitação. Pequena. Mas real.
— Público julga, Gi. - Continuei. - Traição não me daria vantagem nenhuma. Pensa. Só pensa.
Ela desviou o olhar, passando a mão no rosto.
— Eu... eu preciso de tempo.
E saiu. Fiquei ali. Sozinha. Com o silêncio da academia ecoando mais alto do que qualquer grito. Com a certeza incômoda de que alguém tinha puxado um fio perigoso demais. E que se quisessem jogar de maneira suja eu iria retribuir da mesma maneira.
Eu nunca gostei de jogo sujo. Nunca precisei. Sempre preferi o silêncio estratégico, a leitura precisa, o passo calculado. Mas havia uma diferença clara entre jogar limpo... e permitir ser usada como alvo.
Se tinham decidido brincar com a minha imagem, com meus vínculos, com aquilo que eu protegia, então o tabuleiro mudava. E eu mudava junto. Não era promessa. Era constatação. Eu sabia observar. Sabia esperar. Sabia lembrar de cada detalhe que parecia pequeno demais para os outros. E, acima de tudo, sabia devolver. Porque o erro deles não foi provocar conflito.
Foi achar que eu não saberia reconhecer quem começou.
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O Conto De Dois Mundos | Luisa Sonza x You
RomanceSerá que depois de Luísa perder todas as suas esperanças no amor, é capaz de permitir uma nova pessoa na sua vida pondo em risco toda suas ultimas fichas? E s/n? é capaz de conquista a mulher que le tanto tira o folego? (FIC G!P, SE NÃO GOSTA, NÃO L...
