Capítulo Único

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Kid não era uma boa pessoa, tinha consciência disso. Egoísta, não se importava com quase ninguém ao seu redor. Não tinha intenção de agradar ninguém, tampouco era cuidadoso com os sentimentos alheios.

Atrelado à sua prepotência, não tinha ressentimento em acabar com qualquer um para fazer valer sua vontade, mais que isso, adorava causar dor nas pessoas simplesmente para seu bel-prazer. E ainda por cima se considerava superior a todos.

Obviamente as pessoas e coisas com que se envolvesse não estariam tão distantes de sua índole. Sua vida e seus relacionamentos claramente demonstravam isso.

É verdade que Law até poderia ser alguém melhor que ele, mas não era uma pessoa muito boa, não mesmo. Arrogante, um controlador irritante, mal-educado e tão egoísta e insensível quanto Kid (talvez isso fosse um pouco de exagero). Sem contar que o que mais havia entre eles eram brigas, discussões e discordâncias, viviam se provocavam que nem idiotas e o principal contato que tinham estava envolto de desejos e vontades sujas.

Contudo, recentemente Kid vinha notando algo estranho entre eles, sobretudo em si mesmo que fazia com que duvidasse seriamente dos próprios sentimentos. Porque, se era pressuposto que o que sentia e os relacionamentos que tinha era um reflexo de quem era, como era possível que pudesse nutrir algo tão, como poderia dizer, cândido como o que parecia sentir por Law? Já era notável que com a personalidade que tinham pudessem ter um relacionamento decente apesar dos pesares.

Não que duvidasse que pudesse amar; amava a si mesmo e não tinha a menor dúvida disso, também amava Killer e faria de tudo por seu melhor amigo, era seu companheiro de toda a vida.

Só que com aquele bastardo as coisas eram diferentes, era diferente como se sentia, como agia; havia certos limites em sua vida que Kid não cruzava por ninguém, tampouco deixava outras pessoas cruzarem, no entanto eles já não existiam graças a Trafalgar Law.

Não era como se sentia o tempo todo, mas só de haver momentos em que ele se sentia leve e em paz apenas pela presença do outro já era inconcebível para si, assim como não conseguir guardar rancor ou ficar com raiva dele por muito tempo. Até mesmo se tornava tolerante e paciente, embora fosse alguém de pavio curto; permitia que ele dissesse e fizesse coisas que não aceitava de absolutamente ninguém.

O termo "altruísta" nunca foi algo que entendeu bem, isto é, ajudar sem esperar nada em troca, sem nem se queixar do serviço prestado não fazia sentido algum em sua mente; quem diabos faria isso, por pura vontade ainda por cima? Infelizmente Kid teria que se colocar na lista de idiotas, como gostava de chamar. Já havia perdido a conta de quantas vezes agiu assim por ele.

Ser cuidadoso, protetor, romântico, pensar no bem-estar de outra pessoa antes do seu. Essas coisas eram bonitas para outras pessoas, porém Kid só pensava em como isso era tosco, e o pior disso tudo era que se sentia assim, como um idiota, e não conseguia simplesmente se livrar do impulso que o fazia agir da maneira que repugnava. Sequer sabia o que fazia amá-lo tanto assim.

Quem sabe fosse o sexo, afinal começou por se adorarem na cama, mesmo que apenas na cama. Mas não, não era exatamente isso; o que ele realmente gostava eram das provocações e das disputas, era como se para conseguir cada beijo ou toque que desejasse devia conquistar, e o mesmo valia para os dois. Ele adorava isso, tornava tudo mais interessante, fazia-o apreciar bem mais seus momentos juntos.

Ou talvez fosse a dualidade entre eles. Na mesma medida que gostava do caos que geravam, apreciava seus momentos tranquilos; a diferença gritante de personalidade e gostos e a sincronia que estabeleciam ainda assim; a forma que quase simultaneamente podia amá-lo e odiá-lo na mesma intensidade.

Seja o que fosse que tanto o atraía àquele magrelo arrogante charmoso e irritante, não importava. Mesmo que soubesse, isso não o tornaria capaz de controlar como se sentia sobre ele. Só lhe restava questionar se aquele sentimento era real ou algum surto depois de uma grande pancada na cabeça, tal qual a que passou a sentir naquele momento.

- Porra, qual o seu problema?! - Não sabia com o que foi acertado, mas com certeza havia sido o moreno a sua frente que o trouxe de volta dos seus devaneios.

Em resposta, apenas recebeu um olhar entediado. Deveria o socar em retribuição, mas o máximo que conseguia era ficar bravo por breves segundos.

- O sinal tá quase fechando de novo e você tá aí com essa cara de idiota. - Esbanjando sua típica simpatia, Law reclamou do retardo do ruivo. - Tá esperando um convite?

Céus, como ele era irritante, não tinha qualquer respeito por si. Como podia gostar e ainda por cima continuar com aquele idiota?

A indagação lhe provocou uma sensação de dejavu, foi uma pergunta semelhante àquela há poucos instantes que o levou a questionar todas as suas atitudes e sentimentos quanto ao moreno.

- Anda, vamos.

Em algum lugar da sua mente, Kid ouviu a ordem e naturalmente a retrucou irritado, mas seu modo pensativo não permitiu que externalizasse, o que causou estranhamento em Law, embora não tenha questionado.

- O que foi, tá com medo de atravessar, é isso? Quer que eu segure sua mão? - Provocou com um sorriso zombeteiro, passando a segurar a mão do ruivo. - Não sabia que depois de ser atropelado na calçada por uma bicicleta desenvolveu esse trauma.

Kid não respondeu à provocação, apenas permitiu que Law o puxasse para a faixa de pedestres.

Ainda meio aéreo, o ruivo fitou suas mãos entrelaçadas. Law usava um casaco bege de lã que cobria até metade de suas mãos, deixando apenas um pedaço da pele escura e as tatuagens dos dedos à mostra. Ele segurava firmemente os dedos longos de Kid, este que nem casaco usava - apesar do clima frio -, apenas uma munhequeira preta que combinava com a cor do esmalte em suas unhas. Era bonito ver o contraste das suas epidermes entrelaçadas, gostoso de sentir o toque caloroso e o carinho que transpassava por suas falanges, ainda que aquele gesto deixasse seu rosto quente, assim como seu peito.

Porra, que se fodam todas as dúvidas. Eles eram um casal foda e bonito pra caralho, adorava o relacionamento que tinham e nada mais importava.

Por isso que, dois passos depois, Kid puxou Law de volta pela mão e juntou seus lábios aos dele, pouco se importando com o pouco de café que estava na outra mão do moreno que caiu em seu braço quando o girou de volta, ou com o fato dele odiar beijos em público ou por ainda estarem no meio da faixa com pessoas e carros apressados em volta.

Quando se afastou, recebeu um olhar bravo e concomitantemente afetado do outro, além de algumas reclamações ao redor, ao qual o ruivo não poderia se importar menos.

- Você é insuportável. - e Kid o amava.

ContradiçãoOnde histórias criam vida. Descubra agora