Octavia
Oito anos atrás.
Nunca imaginei ser finalmente expulsa de casa depois de anos sendo maltratada e sofrendo diversos abusos. Pois é, meus dias de glória finalmente chegaram. Junto com o frio de morrer — literalmente — da Ucrânia.
Tudo nessa casa é horrível, a goteira próxima da minha cabeça, o chão mofado e quebrado, as paredes manchadas e o cheiro de podridão que passa por quatro paredes.
Meu pente em mãos já estava na sua pior versão desde muito tempo. Não somos pobres, muito pelo contrário, meu pai tem uma mansão moderna, cheia de luxos e coisas caras que os milionários amam. Ele é rico, ao contrário de mim e da minha mãe, que somos pobres.
Quando eu era mais nova, eu chorava por não poder ir morar com eles. Ainda mais que sou a mais velha e meus irmãos mais novos devem estar aproveitando nesse momento, com seus diversos brinquedos e roupas novinhas e sempre limpas. Mas depois de uns anos, percebi que isso não existia, a ilusão de uma vida perfeita — nem meus irmãos existem. Era tudo uma mentira desse velho desgraçado. Sei disso, porque nunca vi sua cara ou ouvi seu nome.
Imagina ser criada no meio desse sangue e sujeira? Prefiro as baratas da minha casa.
Mesmo que minha mãe me culpa por eu ser a desgraça que a colocou nessa posição...
O problema era dela que deu pro chefe casado e engravidou. Claro que iria ser morta, ou pelo menos viver desamparada. Uma bastarda de um chefe da máfia era sinônimo de traição, fraqueza. E isso devia ser exterminado.
Até hoje, eu não desvendei o mistério do porquê eu ainda respiro.
O teto parecia desabar sobre mim, cada goteira sincronizada com a batida acelerada do meu coração. O frio cortante não era apenas do inverno ucraniano, mas também vinha de dentro, da solidão e do desamparo que me envolviam como um cobertor de gelo. Eu sentia cada instante como uma tortura lenta, uma contagem regressiva para algo pior que eu já esperava de olhos abertos, noite após noite.
Todas as noites, penso que alguém vai bater na minha porta, com uma arma na mão pronto para nos matar.
Depois de desembaraçar meu cabelo, saio do quarto indo em direção até a cozinha. Minha mãe estava jogada no sofá, com a garrafa de vinho mais barata do mercado na sua mão esquerda, que comprou depois de trabalhar no posto de serviços algumas horas. Eu já a prevejo ficar bêbada e me ofender com muitas palavras doloridas.
Aquelas que você sabe que é mentira, mas ainda sangra.
Caminho até o armário pequeno da casa, tinha um cheiro estranho por dentro, mesmo assim eu pego o pão antigo para comer com pasta de amendoim. Mesmo tendo um gosto ruim eu como sem reclamar. Não tem outro mesmo.
Observo Claire se levantar do sofá, minha mãe, ainda com a garrafa nas mãos vindo pra cima de mim. Dou um passo para trás, com o coração na garganta. Isso sempre acontecia quando ela perdia um pouco da consciência.
— Ei você! — Ela aponta o dedo pra mim, furiosa. Mesmo com a voz embaralhada eu sabia que ela estava agressiva, com forças pra me bater. — Eu sabia que você era uma desgraça para essa família, mas engravidar de você causou o fim da minha carreira! Eu ia ser modelo, sua vagabunda!
Quase solto uma risada quando ela menciona seu sonho ridículo. Modelo só se for para os mendigos da rua.
— Eu não pedi pra nascer! Você me teve por que quis — retruco, meus olhos fulminantes para despertar a raiva guardada dentro de mim.
Tento me afastar, mas minha mãe segura meu braço com tanta força que solto um grito de dor. Ela solta meu pulso e me dá um tapa na cara, fazendo uma marca da sua mão direita na minha bochecha. Uma lágrima escorre, mas eu a enxugo rapidamente.
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𝐒𝐂𝐎𝐑𝐏𝐈𝐎𝐍 & 𝐒𝐏𝐈𝐃𝐄𝐑 (Blood & Beauty livro 1)
RomanceOctavia é uma jovem destemida envolvida em um mundo perigoso de intrigas e segredos, liderando uma poderosa família criminosa. Seu coração é dominado por uma paixão intensa e proibida por Andrei, um igualmente habilidoso mafioso de uma família rival...
