Senti que alguma coisa havia caído na minha cabeça. Nada pesado, mas estranho: branco e bastante fofo. Não consegui perceber imediatamente o que era.
⎯ O que é isso?⎯ perguntou Minho parecendo assustado.
Foi então que descobri que se tratava de alguma coisa bastante grande, pois cobria nós dois. De repente, escutei gritos, passos e um grande tumulto.
Finalmente consegui tirar aquele estranho objeto de cima de mim e, ao analisá-lo rapidamente, notei que se tratava de uma pena, enorme. Exatamente nesse momento, ouvi outra vez aquele grito horrível, que se somou ao da balbúrdia que acontecia. Então, não tive mais dúvidas.
O pássaro havia voltado. Meu instinto me alertou para fugir imediatamente. Se eu escutava tão bem o grito e aquela pena havia caído sobre mim, isso só podia significar que o pássaro estava perigosamente próximo.
⎯ Pai! ⎯ gritei, mas não ouvi nenhuma resposta. Tentei novamente. ⎯ Pai!
⎯ Veja, lá está ele! ⎯ gritou Minho.
Olhei para a direção apontada e levei um susto quando vi meu pai sendo arrastado pela multidão de homens em fuga. Deixavam um rastro de destruição que começava a bloquear completamente os caminhos.
⎯ Filho... Filho! ⎯ O som de sua voz só foi diminuindo até não conseguir mais vê-lo.
⎯ Temos que sair daqui. ⎯ gritei para Minho.
⎯ Sim, vamos... ⎯ ele interrompeu a frase e eu não compreendi, mas, de repente, tudo ficou claro. ⎯ Não consigo andar. Estou preso!
Olhei para baixo e reparei que uma das estantes havia caído sobre o pé dele, quer dizer, não exatamente, pois, se tivesse sido isso, ele estaria gritando de dor. A parte atingida fora apenas a ponta de um de seus sapatos.
⎯ Arranca o sapato, agora! ⎯ gritei.
⎯ Mas minha mãe vai ficar furiosa! ⎯ choramingou ele.
⎯ Se você não fizer isso agora, sua mãe vai choramingar muito mais. Estamos correndo perigo, será que você ainda não percebeu?
Não, ele não havia percebido. Abaixou-se e fazia força para empurrar a estante, libertar-se. O meu pensamento estava em fugir o mais rápido possível, mas, ao mesmo tempo, eu não podia simplesmente abandoná-lo. Mesmo que Minho conseguisse o que desejava, jamais desvendaria o caminho para a saída. Eu ainda mejamabrava, mas, se demorássemos muito, ficaríamos no meio dos entulhos para sempre.
Resolvi puxá-lo com bastante força. De repente, todo seu peso tombou sobre mim, pois ele havia acabado de conseguir liberar o sapato. Ficamos nos encarando por alguns segundos mais tratei de desviar, estávamos correndo perigo! Não havia tempo para bobagens.
Bati as costas no chão, porém, para minha sorte, caí sobre a pena, que amorteceu a queda. Ouvi novamente o grito e ele estava muito, muito mais próximo.
Olhei para a porta que levava à saída e vi que não havia mais nenhum tumulto. Todos desapareceram, inclusive meu pai. Seria impossível, mesmo para ele, conseguir andar na direção contrária daquela turba apavorada.
⎯ Vamos embora. ⎯ falei enquanto me levantava.
As estantes bambas terminaram de desabar, bloqueando completamente o caminho. Para completar, a porta, que estava entreaberta, foi atingida por uma das estantes e acabou sendo fechada.
⎯ E agora, como é que nós vamos sair daqui? ⎯ Perguntei apavorado.
Minho, como se estivesse alheio a tudo, levantou a cabeça e disse:
⎯ Podemos ir por ali.
Mal disse isso, ele se abaixou e começou a passar por baixo dos destroços. Percebi que não ia adiantar nada argumentar que aquilo era bastante perigoso. E se alguma estante estivesse bamba e caísse sobre a gente? A porta estava completamente bloqueada e não resolveria chegar até ela. Estávamos presos naquela sala.
Porém, outra vez, precisei mudar de ideia, pois tive a impressão de que alguma coisa acontecia com o teto. Ele estava cedendo aos poucos, pequenos fragmentos caíam sobre nós.
Minho, já tinha quase sumido por entre as estantes. Notei que, se havia alguma chance de fuga, só podia ser por ali, e era melhor que eu o seguisse, pois, quando finalmente uma parte do teto desabou, achei que algo muito parecido com um grande olho me observava.
Parte do teto e de uma parede veio abaixo. Foi assustador. Um enorme barulho se fez enquanto tijolos se espalhavam sobre a biblioteca. Eu tremia toda vez que alguns deles quase nos atingiam. Felizmente, a parede que cedia estava do lado oposto ao nosso.
É evidente que algumas partes voavam pela sala e acertavam qualquer coisa, aleatoriamente. Por sorte, eu e Minho estávamos debaixo de várias estantes quebradas e, pelo menos, até aquele momento, seguros.
O maior incômodo veio em seguida: a grande quantidade de poeira que se ergueu. Ela foi se espalhando devagar e, aos poucos, se transformou em uma nuvem gigante. De início, atrapalhou somente a visão, porém, em pouco tempo, a respiração foi ficando impossível.
⎯ Não estou conseguindo respirar. ⎯ disse Minho. ⎯ Quero sair daqui.
⎯ Fique quieto. A gente não sabe o que está acontecendo...
Eu estava bastante preocupado, pois não sabia quem teria tido força suficiente para derrubar aquela parede e o teto. Não conseguia me esquecer daquele olho assustador... Gostaria que ele não tivesse me visto, mas, se eu fosse você, não apostaria nisso.
Minho tentou se mover, porém seu outro pé ficou preso e ele não conseguiu se movimentar. Só assim para ele ficar quieto por alguns instantes.
Quando a poeira começou a baixar, olhei para as minhas mãos e estavam totalmente brancas. O que se seguiu foi um silêncio aterrador. Aquilo piorava a sensação de medo que eu sentia.
De qualquer forma, não durou muito. Notei coisas estalando, como se estivessem sendo quebradas ao mesmo tempo. Era um som distante, mas o chão vibrava. Em pouco tempo percebi que os restos das estantes que nos cobriam estavam se movendo, como que mudando de lugar.
Eram passos! Havia alguma coisa caminhando sobre tudo aquilo. Eu precisava sair dali, mas para onde? Como?
⎯ Olha só ⎯ avisou Minho ⎯ Meu pé se soltou.
Ao dizer isso, ele voltou a ganhar mobilidade e vi claramente quando se arrastou por entre os pedaços de madeira. Era como se ele conhecesse o caminho. Os destroços se erguiam e abaixavam a cada passo do que quer que fosse que estivesse caminhando por ali, e isso abria brechas para que pudéssemos passar.
Segui Minho. Eu não entendia por que ele não estava apavorado como eu. A minha esperança era a de que conseguíssemos chegar até a porta e, de repente, meu pai e um grupo de salvamento estivessem nos esperando.
Mas ouvi apenas aquele grito estridente novamente. Outras penas caíram e...
⎯ Socorro!
De repente, Minho desapareceu. Vi quando ele foi erguido no ar como um pequeno inseto.
Tenho vergonha de confessar, mas me escondi.
Afinal, fiz o que qualquer cidadão da minha vila faria: pensei em mim mesmo. Mas os gritos de socorro do Minho me torturavam. Ele não parava de berrar e imaginei que seria melhor o tal do monstro acabar de uma vez com aquele sofrimento.
Senti um vento sobre mim, como se fosse um sopro. Não entendi de onde vinha e, quando por um segundo eu ergui a cabeça, levei um susto. Aquele olho me encarava novamente. O vento provinha de suas narinas. Ele me cheirava. Já havia descoberto o meu esconderijo.
Então, sem que eu pudesse fazer qualquer coisa, senti quando uma garra afiada me pegou. Fui erguido no ar e tremi ao observar que ficava cada vez mais distante do chão.
Vendo aquele monte de livros lá embaixo, aquelas histórias que eu certamente jamais conheceria, lembrei-me de Dandy e do que havia acontecido com ele.
Seu desaparecimento... O triste destino.
Percebi que o monstro me puxava para o alto, para a sua boca.
Em breve, eu também viraria uma lenda.
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prisioneiros na biblioteca' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀
FantasyHan Jisung vive em uma vila onde as pessoas evitam o desconhecido. A cada dez anos, ocorre o desafio "A busca do livro ideal" na biblioteca local, fechada devido ao desaparecimento misterioso de um homem. Jisung e seu pai participam do desafio, mas...
