-Lindonéia! - Uma mulher de meia-idade chamou a feirante, que estava ocupada embalando algumas frutas para um cliente.
- O que foi, Francisca? - Ela se virou para a conhecida. - Quem morreu dessa vez?
- Deus me livre. - Francisca lançou-lhe um olhar reprovador, antes de se certificar de que não havia ninguém por perto. - A Luzia quer que você passe lá na casa dela. É importante. Bem importante. - Ela se aproximou de Lindonéia e cochichou no seu ouvido. - Parece que pegaram o Galego, e estão atrás do resto do povo. Toma cuidado.
- Pode deixar. Eu vou sair daqui antes de escurecer, então não vai com o que se preocupar.
- Assim espero. - Francisca balançou a cabeça antes de se afastar e se misturar com o resto da multidão.
. . .
Lindonéia Alves Barreto não era feia. Nem bonita. Era uma mocinha de 18 anos, na flor da idade, mulata de olhos escuros e lábios grossos. Religiosíssima, sempre ia à missa aos domingos, e tinha acabado de terminar o ginásio. Queria estudar sociologia. Poderia ter tido uma vida normal, sem problemas com o governo. Mas nem ela e nem o destino quiseram assim. Por ser tão comum, tão mundana, ninguém via algo anormal nela. O que facilitava muito quando se ajudava as guerrilhas.
Mas ela não passou despercebida pelos militares naquela manhã de domingo. Ou será que era uma segunda-feira? Enfim, isso é irrevelante para o nosso conto.
Lindonéia estava voltando da igreja, como um dia qualquer. Não se deu conta de que um carro estranho estava parado na esquina. Não se deu conta dos homens desconhecidos espalhados pela rua. Policiais à paisana, vigiando. Na verdade, a única coisa que havia lhe chamado à atenção era o que um dia havia sido um cachorro no meio da rua. Despedaçado.
Depois disso, ouviu passos atrás de si. Sentiu uma pancada na parte de trás da cabeça. Apagou.
Era a última lembrança que teria do mundo exterior.
. . .
Acordou. Não estava em casa. Nem na de Luzia. Não estava na igreja. Custou a perceber onde se encontrava. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos ao perceber que havia sido pega. Estava numa cela suja, fétida e escura. Não estava mais com a bolsinha bege. A cabeça latejava. Se encolheu num canto.
Será que fariam algo com ela? O que queriam? Ela era só uma feirante, certo?
Sorriu para o nada. Que estúpida. Já estava morta.
. . .
- Acorda, vadia! - Um interrogador jogou-lhe um balde d'agua no rosto, que a fez abrir os olhos quase imediatamente.- Olha se não é uma das putinhas do Galego. - Um homem todo de preto entrou na sala, trazendo uma pasta. - Tão bonitinha... Pena que é comunista. - Ele chutou as pernas de Lindonéia. - Vamos, o que você tem a dizer sobre os seus colegas? Onde é que Luzia Ferreira está?
- Eu... Eu... Não sei... Não tô lembrada. - Ela sussurrou.
- Eu sei que você sabe, Lindonéia. Tente se lembrar. - Ele pegou a palmatória, e bateu com toda a sua força no rosto da jovem. - Onde é que tá a Luzia?
- EU NÃO SEI, PORRA! - Ela mesma se assustou com a intensidade em que havia falado e com o palavrão que havia saído sem querer. Escondeu a cabeça entre as pernas.
Todos na sala se calaram, até que um dos soldados começou a rir.
- Quem diria, a Lindonéia soltando um "porra"... Ela não era toda metida a santa?
- Lembre-se de que as santas são as mais safadas, Aurélio. - O interrogador abriu um sorriso perverso. - E se a gente colocasse isso a prova?
Lindonéia encolheu-se ainda mais. Talvez fosse a vergonha. Ou o frio. Ou a vã tentativa de se proteger. Ou talvez fosse tudo ao mesmo tempo.
Estava nua. Humilhada. Ferida. Havia perdido a noção do tempo. A sua inocência havia sido espantada aos gritos desde o momento em que havia sido arrastada para aquela maldita sala. A sua pureza, preservada com esmero por 18 anos, havia sido arrancada por um militar qualquer quando ela se recusou a falar o que eles queriam. O seu rosto, antes tão bonito, tão comum, estava quase desfigurado. Um filete de sangue escorria pelos seus lábios inchados. Ostentava com embaraço um olho roxo, os dedos em carne viva, as escoriações e hematomas espalhados pelo seu corpo, tão mirradinho e desnutrido. Se sentia um lixo.
Agora, havia aprendido que " falsa" era um verdadeiro elogio ao que falavam para ela nos interrogatórios. Vários nomes que não ouso repetir aqui. Lindonéia achava horrível a forma de que falavam "guerrilheira" ou "comunista". Ela se orgulhava de ser. Por que quando eles falavam faziam isso soar tão pior?- Levem-na para a cela. Amanhã a gente põe ela no pau de arara, se não quiser colaborar. Por hoje é só.
. . .
Começou a se perguntar onde os outros estavam. Estavam bem? Vivos, ao menos? Francisca? Luzia? Sabia que Galego não estava vivo, muito menos bem. Os malditos haviam o matado na sua frente. O que será que diriam para a família dele?
Ah, daria tudo para ver a feira novamente. Provar uma manga. Abraçar sua mãe. Estava sozinha. Não suportava a solidão. Acabaria enlouquecendo ali. Fechou os olhos e se deitou no chão, tendo apenas as baratas como companhia.
Os policiais. As frutas na feira. A sua imagem ainda imaculada no espelho, antes de desaparecer. O pobre cachorro, despedaçado. Atropelado. Francisca lhe dando uma bronca.
A verdade é que Lindonéia sempre fora só. Havia brincado de ser gente por um tempo, mas desde que haviam lhe jogado naquela cela, havia voltado a ser ela. Não era mais Lindonéia, a Rainha das frutas. Não era mais Lindonéia, a menina de nome estranho. Não era mais Lindonéia, regente do coral da igreja. Não era mais Lindonéia, a guerrilheira. Não era mais Lindonéia, a sonhadora. Era Lindonéia, a desaparecida. A Lindonéia que morreu de dor.A Bela Lindonéia
De 18 anos morreu instantaneamente.
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Brasil Multifacetado
RandomVários pequenos contos baseados em músicas brasileiras. Capa provisória. 1 - Lindonéia