J U L I E
Um ano e meio antes
Eu tinha aprendido muito rapidamente que nada era tão ruim que não podia piorar.
Quando Nash havia me buscado no meio da noite para voltar para o hospital com uma expressão sombria e cheia de pesar, eu sabia que estava prestes a finalmente ser consumida pelo buraco negro que vinha gradativamente me puxando nas últimas semanas. Os estudiosos chamavam isso de horizonte de eventos: o ponto de não retorno em volta de um buraco negro. Depois disso, nada escapava e não havia retorno.
Eu sabia que era a hora, que não havia mais nada a ser feito. Nenhuma quantidade de luta seria suficiente para impedir o inevitável. Papai havia passado a última semana no hospital, depois de meses lutando contra o câncer de maneira honrosa. Ele havia resistido o máximo possível, desejoso por ficar em casa, no lugar e com as pessoas que eram tudo em sua vida. Sair do rancho havia sido um golpe para ele, mas sua recaída rápida não deixou alternativa. E agora, depois de dias terríveis, meu pai não sairia desse hospital. Essa era nossa linha de chegada.
Diante da perda iminente, eu congelei, como se estivesse em estado de choque. Não havia preparação no mundo que me fizesse minimamente capaz de enfrentar esse momento. Meu corpo balançava por conta própria, meus braços apertados ao redor de mim mesma, como se tentando me proteger da dor. Era impossível.
— Querida, ele quer você lá. — Tia Molly tocou meu ombro, seu rosto cheio de compaixão. Ela estava chorando também, afinal, aquele era o irmão dela. Ainda assim, ela estava me priorizando. Papai me queria lá, ele queria me ver uma última vez, queria se despedir. Deus, estava acontecendo.
Meus punhos cerrados foram até os olhos e eu os esfreguei com força, como se pudesse parar as lágrimas. Apesar do calor, meu corpo não parava de tremer e meu estômago não se acalmava. Ainda assim, tinha que ignorar tudo isso por causa do meu pai. Eu tinha que encará-lo com pelo menos um pouco de compostura. Ele não deveria passar seus últimos momentos me vendo desabar. Endireitando meus ombros, eu finalmente assenti e avancei pelo corredor sozinha, meus pés quase vacilando a cada passo. Não era capaz de explicar como minhas pernas me levaram até o quarto sem falharem, mas de alguma forma eu consegui chegar até lá, respirando fundo uma última vez antes de entrar.
Papai estava deitado na cama, parecendo frágil, tão diferente do homem que eu conhecia. Eu teria que lutar para que minhas memórias fossem do homem saudável e ativo que me criou, aquele que trabalhou no rancho a vida toda e que transmitiu essa paixão para mim. Aquele que amava o sol, a natureza e fazer as coisas com as próprias mãos, que podia consertar qualquer coisa e que era forte, mas que também sempre havia sido gentil comigo, que havia se esforçado para me oferecer a delicadeza de uma mãe também. Sua cabeça virou lentamente e ele sorriu como se o mundo não estivesse acabando dentro de meu peito.
— Minha menina. — Ele chamou.
— Papai. — Eu me aproximei, sentando-me na beirada da cama. Eu lutei, mas as lágrimas escorreram por minhas bochechas, traindo-me.
— Não chore, meu bem, você sabe que eu odeio isso. — Ele me disse, colocando sua mão na minha. — Está tudo bem. É assim que deve ser.
— Eu ainda preciso de você. — Eu chorei. Minhas palavras transmitiam o desespero que eu sentia diante da ideia de perdê-lo, de não ter mais ninguém.
— Não precisa, menina. — Papai disse com um sorriso triste — Você cresceu e se tornou uma mulher forte, inteligente e cheia de graça. Uma mulher que vai conquistar o mundo sem se esquecer de onde ela veio. Uma que me faz extremamente orgulhoso. Não há nada mais que um pai possa pedir. Meu trabalho está feito.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Where We Unravel
RomanceSomewhere Only We Know | Livro 2 Duas pessoas conectadas pelo passado, ousando imaginar um futuro no qual seus caminhos se cruzem novamente. Romeo Whitmore, aos olhos do mundo, tem a vida perfeita. A estrela do Crimson Tide brilha forte dentro de ca...
