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A casa de Victoria Veloso era um lugar acolhedor, com suas paredes adornadas por quadros que retratavam praias e paisagens tropicais, típicas de um Brasil distante, mas sempre presente nos olhos de quem as via. Os móveis eram simples, mas de bom gosto, e a luz suave que vinha das lâmpadas pendentes criava um ambiente confortável. Mas, naquela noite, o clima estava pesado.

Victoria estava na cozinha, com as mãos apoiadas na pia enquanto olhava pela janela. Ela sabia que a conversa que estava prestes a ter com Jessica Walton não seria fácil. Há meses, ela sentia que algo não estava bem com a sobrinha, mas não sabia o quê. Luara sempre foi fechada, e o intercâmbio parecia ser uma fuga, uma maneira de se afastar de tudo. Mas agora, ao ver o olhar da sobrinha nos últimos dias, o peso nas palavras que ela não dizia, Victoria sentia que era hora de enfrentar a realidade.

A campainha tocou, e, quando Victoria abriu a porta, encontrou Jessica Walton, a mãe de Jaden. Jessica, uma mulher de 46 anos de idade, com um sorriso suave, parecia mais à vontade do que Victoria se sentia, como se a conversa que estavam prestes a ter fosse apenas uma formalidade.

"Oi, Victoria! Como você está?" Jessica perguntou, com um tom cordial.

"Oi, Jessica. Pode entrar", Victoria respondeu, tentando esconder a apreensão que sentia. Ela sabia que Jessica nunca havia sido uma pessoa fácil de lidar. A tensão entre as duas vinha de anos de diferenças de opinião, especialmente sobre como criar filhos. Jessica era direta, pragmática, quase sempre focada no que seus filhos precisavam fazer para alcançar o sucesso, sem muita paciência para fraquezas ou erros.

As duas se sentaram à mesa, e Victoria imediatamente notou que Jessica estava mais desconfortável do que o normal. Ela estava quieta, como se soubesse que algo estava para acontecer.

"Eu... precisava conversar com você sobre a Luara", Victoria começou, de forma hesitante.

Jessica franziu a testa, a expressão de curiosidade imediatamente substituindo o sorriso. "Sobre Luara? O que aconteceu?"

"Eu percebo que ela não está bem. Que algo a está afetando, e ela não fala sobre isso. Eu... sou a tia dela, Jessica, mas, às vezes, sinto que ela está se afastando de todos nós. Não sei se é por causa da distância, do intercâmbio... Ou se é algo mais profundo."

Jessica permaneceu em silêncio por um momento, observando Victoria com um olhar de cautela. "Você acha que há algo errado com ela? Eu acho que ela só está se ajustando. O processo de adaptação é difícil, não é?"

Victoria balançou a cabeça. "Não é só isso. Eu vejo o que está acontecendo aqui, Jessica. Algo mais pesado está por trás disso." Ela deu uma pausa, tentando organizar suas palavras. "Eu sei que vocês têm um modo diferente de lidar com as coisas, mas... você não percebe que a Luara está se perdendo? Que a pressão está se tornando demais para ela?"

Jessica deu um sorriso curto, que não chegava a ser genuíno. "Victoria, todos nós passamos por isso. Queremos o melhor para nossos filhos. Eles têm que entender que o mundo não é fácil. Não podemos ficar toda hora atrás deles, dizendo que está tudo bem quando não está."

A resposta de Jessica cortou como uma faca, e Victoria se sentiu desconfortável com a frieza da mulher. Era como se ela não compreendesse a profundidade das palavras de sua sobrinha. Como se o emocional fosse algo secundário, irrelevante, diante dos grandes objetivos.

"Eu sei que você tem suas próprias crenças sobre como criar o Jaden", Victoria continuou, tentando manter a calma, "mas Luara não é o Jaden. Ela não reage da mesma maneira que ele. E eu acho que você está perdendo isso."

Jessica ficou rígida na cadeira, sua expressão tornando-se mais impassível. "Eu não entendo o que você quer dizer com isso. A Luara não é minha filha, Victoria. Eu sei que ela tem seus problemas, mas o que você espera de mim? Que eu venha até aqui e aponte os erros dela? Não vou fazer isso. Cada um tem a sua vida. Se ela não quer se abrir, então não posso forçar."

Victoria sentiu a frustração crescer dentro de si, mas ela não podia perder o controle. Não podia deixar a raiva falar mais alto. "Você não entende. Eu não estou dizendo que você deve forçar nada, mas você tem que começar a perceber que a Luara não está em um bom lugar. E isso não é sobre dar a ela mais responsabilidades ou mais expectativas. É sobre ver o que está acontecendo antes que seja tarde demais."

Jessica deu um suspiro profundo, parecendo já cansada da conversa. "Eu entendo mais do que você pensa, Victoria. Eu sei que as coisas não são fáceis, mas, se eu te contar algo, você promete que não vai usar isso contra mim?"

Victoria a olhou, confusa. "Claro, Jessica. Pode falar."

Jessica se inclinou para frente, abaixando a voz. "O Jaden... Ele tem sido meu ponto de apoio nos últimos meses. Ele é um bom garoto, mas, honestamente, as coisas não estão fáceis por aqui. A pressão dele para manter as notas altas e para se sair bem nos jogos de baseball... Isso está pesando sobre ele também. E, às vezes, sinto que estamos todos tentando ser alguém que não somos, só para atender a expectativas que não pedimos."

A confissão de Jessica pegou Victoria de surpresa. Era raro ela ver a mulher tão vulnerável, tão aberta a falar sobre suas próprias fraquezas. Por um momento, a tensão diminuiu, mas o peso das palavras continuava a pesar sobre as duas.

"Eu entendo", Victoria disse, com um suspiro. "Mas talvez... talvez seja hora de parar de tentar ser quem achamos que devemos ser e começar a ser quem realmente somos. Para todos nós, Jessica. Inclusive para Luara."

Jessica ficou em silêncio por um longo tempo. A conversa já não parecia mais ser sobre a diferença de criação entre elas, mas sobre as pressões que ambas sentiam em seus próprios mundos. O que começou como um confronto sobre a sobrinha de Victoria agora parecia uma troca de dores silenciosas.

"Eu... vou tentar", Jessica finalmente disse, sua voz suave. "Eu só não sei como fazer isso direito."

Victoria sorriu suavemente. "Ninguém sabe, Jessica. Estamos todos aprendendo."

Por um momento, as duas mulheres ficaram ali, olhando uma para a outra, finalmente compreendendo o peso das palavras não ditas. Mas, no fundo, ambas sabiam que nada seria fácil. E que, talvez, esse fosse apenas o começo de uma nova etapa em suas vidas, onde a compreensão e a aceitação seriam as únicas coisas capazes de curar as feridas do passado.

THE CATCH OF MY LIFE | Jaden Walton.Onde histórias criam vida. Descubra agora