Albedo (Parte 2)

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A brisa noturna soprava leve enquanto eu subia o Pico do Vento. O céu está claro, repleto de estrelas, e Mondstadt brilha abaixo como um mar de pequenas luzes. Eu gosto desse lugar; da vista, do silêncio, da sensação de estar acima de tudo. Da sensação de que estou próximo ao céu, para onde eu gostaria de ir. Para o além céu com minha irmã.

Mas, ultimamente, não é apenas essa sensação de conforto que tem me feito voltar para cá.

- Você demorou. - Sua voz calma me fez parar, procurando pelo dono dela.

E lá estava, sentado perto da beirada, com um caderno de desenho equilibrado nos joelhos. A ponta do carvão deslizando sobre o papel com seus dedos manchados de grafite. Albedo sempre parece absorvido pelo que faz, como se o mundo ao seu redor não passasse de uma distração passageira.

- Eu não sabia que tínhamos combinado um encontro. - Respondi, cruzando os braços.

Ele ergueu os olhos, avaliando com aquele olhar analítico de sempre. Mas, por um instante, quase pareceu sorrir.

- Não precisamos combinar. Você sempre vem.

Senti um aperto estranho no peito. Ele está certo. Eu sempre venho. E parece que ele sempre está me observando, de uma forma ou outra.

Caminhei até onde ele está e inclinei um pouco para espiar seu desenho. É minha silhueta, de costas, olhando para o horizonte. Meus cabelos estão soltos, flutuando ao vento, e há algo no traço. um toque de suavidade, uma atenção aos detalhes que eu não sei se é real ou apenas uma ilusão minha.

- Você me desenha demais.

- Você tem um rosto interessante.

A resposta foi simples, sem hesitação, sem tom de brincadeira. E de alguma forma, isso me deixou sem palavras.

- Você já desenhou a Lumine? - Perguntei depois de um tempo, tentando dissipar o peso que havia se instalado em minha garganta.

Ele parou por um momento. Então, sem levantar a cabeça, respondeu:

- Não.

- Por quê?

Finalmente, ele olhou para mim. Seus olhos, normalmente tão frios e calculistas, estão levemente mais suaves sob a luz da lua.

- Porque eu nunca a vi. - Minha respiração falhou por um segundo. - Mas vejo você.

O vento pareceu soprar mais forte. Meu coração, que sempre bate no mesmo ritmo constante, pareceu errar uma batida. Eu deveria dizer algo. Qualquer coisa.

- Fique parado. Ainda não terminei.

Suspirei, voltando a encarar o horizonte. Meu rosto esquentou sem motivo aparente. Eu gostaria que ele a desenhasse, gostaria de ter algo para lembrar de seu rosto, além de minhas próprias memórias. Sinto que um dia poderei esquecer dela, como ela parece ter esquecido de mim.

O aperto em meu peito só aumentou. Não é como se eu quisesse duvidar de Lumine, mas às vezes a dúvida me corroía. E se ela realmente tivesse me esquecido? E se, enquanto eu passava noites em claro pensando nela, desejando alcançá-la, ela estivesse vivendo sua própria história, sem sequer olhar para trás?

Fechei os olhos por um momento, sentindo a brisa fria contra minha pele. Quando os abri novamente, Albedo ainda me observava. Ele sempre faz isso, como se estivesse tentando me decifrar, entender as cores e sombras dentro de mim.

- Você está diferente. - Sua voz foi mais baixa desta vez, quase hesitante.

Eu ri, mas o som saiu fraco, sem humor.

Aether... haaa (+18) {Concluída}Onde histórias criam vida. Descubra agora