Arlecchino (Parte 2)

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O som da água correndo sempre me trouxe uma estranha sensação de paz. Mesmo com todos os olhares de Fontaine, aqueles olhares prontos para te pegar no instante em que pensar em quebrar uma lei. E eu não esperei encontrá-la hoje, muito menos que ela estivesse me observando a algum tempo.

A cidade brilha durante a noite, não apenas os palcos que usam para os tribunais tão teatrais, mas também as pequenas luzes em cada poste, cada loja expondo suas peças, cada canto iluminado de justiça. As pessoas assistem as condenações como quem assiste uma peça, mas pior, muito pior. Encantados, cúmplices, pequenas ovelhas de um rebanho. Aliviados por não serem os protagonistas. Seguindo a opinião popular como se realmente estivessem em posição de julgar alguém.

Fatos? Não. Claro que não. "Eu acho", tão banal, tão comum, tão avassalador. "Não fui com a cara daquela pessoa, eu acho que é culpada". Os fatos não importam, porque é tudo parte de um show. A justiça, se não fosse por Neuvillette, seria apenas uma piada. Ou você conquista o público e sua liberdade, ou é condenado por não ser aceito na sociedade.

E ela, ela não é parte do público, ela não é protagonista, ela nunca é apenas uma espectadora. Arlecchino nunca aparece sem um plano em mente, sem a certeza de que não será julgada por suas ações.

Vi seu reflexo antes de vê-la. Na superfície da água da fonte, com seus traços movidos pela água não tão calma. E mesmo com as luzes perdidas na superfície, sua figura ainda se destaca. Elegante, tensa, perigosamente calma.

- Você não deveria andar sozinho de noite, pequeno herói. - Sua voz calma, mas afiada, sem pressa nenhuma.

Virei devagar, ainda tenso pelos meus próprios pensamentos. Meu coração pode ter acelerado, mas meu rosto não mudou. Já vi deuses, vi mundos sendo devastados e atravessei guerras, mas ainda assim há algo nos olhos que me deixam alerta como nunca.

Ela sorriu, não um sorriso gentil. Arlecchino não parece feita para suavidades. É o sorriso de alguém que está acostumada a vencer.

- Eu sou livre para andar onde eu quiser. - Avisei, sentando na beirada da fonte, onde não serei molhado. - O que você está fazendo aqui? Me seguindo como uma mosca na luz.

- Talvez eu só esteja protegendo Fontaine de você. - Avisou, dando um passo na minha direção. O som de seus saltos contra a pedra molhada ecoaram suaves, suaves demais, ameaçadores.

- Ou de você mesma. - Rebati.

Minha coragem é parte de quem sou, e poucas coisas em Teyvat me assustam mais do que ela. E naquele instante, por trás do olhar frio, algo brilhou. A faísca que odeio. Quase como se ela tivesse gostado da resposta que dei.

- Então, o que exatamente você quer comigo, Arlecchino?

Estou com raiva.

E ela sabe disso.

Sabe que essa raiva não é nova, não é momentânea. É o tipo de raiva que fermenta em silêncio, guardada no peito como uma brasa incômoda que se recusa a apagar. Uma raiva que não vem só do orgulho ferido, mas do desejo sufocado. De tudo que ficou pela metade.

Sinto raiva dela desde o nosso último encontro. Um encontro que terminou do pior jeito possível.

Eu queria ficar. Queria mais tempo com ela. Queria lutar ao lado dela, entender aquela missão absurda que ela insistia em esconder de mim. Queria um beijo. Um toque. Qualquer coisa real. Mas, no lugar disso, discutimos. Discutimos feio.

Ela perdeu a paciência com minha insistência, com minha arrogância, com o fato de que eu me recusei a abaixar a cabeça; mesmo diante dela. Eu não queria obedecer. Queria fazer parte. Queria ser visto como igual.

Aether... haaa (+18) {Concluída}Histórias para pegar e não largar. Descubra agora