ep 39

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Enquanto Dona Ruth corria atrás da verdade para defender Gabi, na casa das meninas, o clima seguia carregado de sentimentos contidos. Gabi estava lá, sim, mas desconectada de tudo. Ela passava os dias em silêncio, deitada na rede, olhando pro nada. Não comia direito, evitava conversas, e mesmo com os filhos por perto, era como se estivesse presa em um lugar escuro dentro de si.

Era um momento delicado. Um desgaste emocional profundo.

Mesmo com tanto amor ao redor, Gabi se sentia vazia, desconfiada de tudo e de todos. Por dentro, o coração pesava. Ela queria acreditar que não estava sozinha… mas a dor ainda falava mais alto.

Maraisa, por sua vez, não estava aguentando mais ver Gabi assim. Toda noite tentava descansar um pouco no quarto, mas a cabeça não deixava. O sono não vinha. A saudade da Gabi alegre, sorridente, presente, estava sufocando-a.

— "Ela tá aqui... mas parece que não tá." — sussurrava, deitada, com os olhos molhados de lágrimas. — "Será que ela vai voltar a confiar em mim algum dia?"

Marília também sentia o peso da situação. Tinha dias que ela tomava um banho chorando em silêncio, só pra tentar aliviar a tensão que carregava no peito.

Aquelas últimas semanas tinham sido as mais difíceis da vida delas. Cada uma, à sua maneira, estava sendo afetada por tudo aquilo. E mesmo com Dona Ruth em busca da verdade, a dor no presente era real e diária.

Elas não sabiam ainda da confissão de Paulin.

Não sabiam que ele armou tudo por pura possessividade, medo e insegurança.

Enquanto isso, Maraisa começava a pensar no que fazer se a verdade não chegasse a tempo.

No quarto de Maraisa, à noite. Ela está sentada na beirada da cama, aflita, mexendo nas mãos. Marília entra devagar e fecha a porta com cuidado.

Marília:
(se aproxima devagar)
Ei… posso entrar ou esse é um daqueles momentos em que você quer que o mundo desapareça?

Maraisa:
(suspira fundo)
Se eu soubesse como fazer o mundo desaparecer agora, juro que fazia, Marília…
(olha pra ela com os olhos marejados)
Eu tô perdendo a mulher da minha vida por causa de mentiras. E eu nem sei quem tá por trás disso tudo...

Marília:
(senta ao lado dela e segura sua mão)
Você não tá perdendo ela, Mari. Você tá lutando. E isso já diz muito sobre o quanto ela significa pra você.

Maraisa:
Mas e se ela acreditar nessas coisas? E se ela olhar pra mim e não enxergar mais a verdade? Eu não sei lidar com isso.
(engole o choro)
Eu sempre fui forte, mas dessa vez… tá me quebrando por dentro.

Marília:
(fala com firmeza, mas com carinho)
Mari, olha pra mim. Você é forte sim. Mas ser forte também é saber quando a gente precisa de apoio. E eu tô aqui. A minha mãe tá correndo atrás de descobrir quem tá por trás dessas mentiras. E você? Você tá aqui, sentindo, chorando, mas amando com todo o coração. Isso nunca vai ser fraqueza.

Maraisa:
(encosta a cabeça no ombro de Marília)
Eu só queria que ela acreditasse em mim, só em mim…

Marília:
E ela vai, amor. Porque a verdade sempre encontra um jeito de aparecer. A Gabi te conhece. Pode estar machucada, confusa… mas no fundo, ela sabe quem você é. E quando tudo isso passar — porque vai passar — ela vai enxergar que você nunca deixou de estar ao lado dela, mesmo quando tudo parecia perdido.

Maraisa:
(com a voz baixa)
Você acha mesmo que ainda tem chance?

Marília:
(sorri, acariciando o cabelo dela)
Se tem amor de verdade — e eu sei que tem — então sempre tem chance. O amor não desiste fácil, Mari. E nem você.

[Continuação do episódio – No corredor, do lado de fora do quarto]

[Gabi está parada, meio escondida atrás da parede. Veio buscar um copo de água na cozinha, mas parou ao ouvir vozes. Ela reconhece a voz da Maraisa e decide ouvir. Está com os olhos cansados, o coração apertado, mas alguma coisa a fez parar.]

Marília (dentro do quarto):
(com a voz suave)
O amor não desiste fácil, Mari. E nem você. Ele só precisa de tempo… de verdade… e de paciência. E você tem tudo isso dentro de você.

Maraisa:
(fungando)
Eu queria tanto que ela ouvisse isso. Que ela sentisse tudo que eu tô sentindo… que entendesse que cada palavra que disseram sobre mim é mentira.

Marília:
Talvez ela esteja ouvindo mais do que você imagina…

[Gabi fecha os olhos, engole seco. A voz da Maraisa a tocou fundo. Ela se apoia na parede, o olhar perdido. Ainda há mágoa, ainda há confusão. Mas algo dentro dela começa a estremecer.]

Maraisa (dentro do quarto):
Eu amo ela, Marília. Com tudo o que eu sou. E dói… dói demais ver ela se afastar de mim por algo que eu nem fiz.

Marília:
Então não desiste, Mari. O que vocês têm… é raro. É bonito. E o amor sempre acha um jeito de voltar pra casa.

[Gabi, agora visivelmente emocionada, limpa uma lágrima que escorreu sem que ela percebesse. Ela dá dois passos para trás, silenciosa, e volta para o próprio quarto, fechando a porta devagar.]

[Dentro do quarto, Maraisa levanta a cabeça, como se tivesse sentido algo. Marília percebe.]

Marília:
O que foi?

Maraisa:
Não sei…
(respira fundo)
Por um segundo, eu senti como se ela estivesse perto. Como se… tivesse me escutando.

Marília:
(sorri de lado)
Talvez estivesse.

Mais tarde naquela noite – No quintal da casa, com a brisa leve e o céu cheio de estrelas

Maraisa está sentada sozinha em uma cadeira de madeira, enrolada em um casaco, olhando pro céu. Está pensativa, os olhos perdidos nas estrelas. O silêncio da madrugada é interrompido por passos suaves.

Gabi aparece na porta do quintal, segurando uma xícara de chá. Ela hesita por um segundo, mas respira fundo e se aproxima.

Gabi:
(com a voz baixa)
Tá frio, né?

[Maraisa se vira devagar, surpresa, mas não fala de imediato. Apenas observa Gabi se aproximar e sentar ao lado, com uma certa distância entre elas.]

Maraisa:
Tá sim.
(olha pra frente novamente)
Mas acho que o frio de fora é mais fácil de lidar do que o que a gente sente por dentro.

[Gabi olha pra Maraisa, os olhos mais calmos, mas ainda carregando um peso. Ela segura a xícara com força, como se estivesse tentando se manter firme.]

Gabi:
Eu ouvi… parte da conversa com a minha mãe.

Maraisa fica em silêncio. Seus olhos se arregalam um pouco, mas ela apenas respira fundo.

Maraisa:
Ouviu?

Gabi:
Ouvi.
(olha para as próprias mãos)
E… por um momento, eu senti a sua dor. De verdade.
(pausa)
Você ainda me ama daquele jeito todo?

Maraisa vira o rosto pra ela, os olhos cheios d’água.

Maraisa:
Com tudo o que eu sou. Mesmo quando você parece longe… mesmo quando eu não sei mais o que fazer… eu te amo do mesmo jeito.

Gabi fecha os olhos por um segundo. Respira fundo. Depois, encara Maraisa.

Gabi:
É difícil… porque as coisas que falaram mexeram comigo. Me fizeram duvidar até do que eu via nos teus olhos. Mas hoje… ouvindo você, eu vi de novo. Eu senti de novo.
(voz embargada)
E eu não quero deixar o medo vencer.

Maraisa se aproxima um pouco mais, ainda cautelosa.

Maraisa:
Então não deixa. A gente pode começar do zero… devagar… só nós duas, longe das vozes, das mentiras, dos ruídos. Só a gente.

Gabi estende a mão, hesitante. Maraisa segura.

Gabi:
Devagar… mas de mãos dadas.

As duas se olham com cumplicidade. Não há beijo ainda. Só um silêncio leve, carregado de sentimentos sinceros. Elas ficam ali, juntas, olhando o céu, como se ele tivesse acabado de recomeçar também.

Continua.......

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