Odeio sentir saudade

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Caneca, café quase derramando e minha cabeça indo longe igual ônibus da venda nova.

— Me ver? — repito meio seca. — Cê tá em que planeta, mulher?

— Na terra mesmo, ué — ela ri baixinho, nervosa — Eu tô na cidade. cheguei ontem.

Aí meu coração faz aquele poc safado no peito.
claro que tinha que ficar pior.

— Ah marromeno, né — falo tentando bancar o desinteressada — Some por dois anos e agora cai do céu falando "oi sumida", "sonhei que casei com você" e "abri a porta tô aqui na sua rua", cê acha que eu sou o quê? aplicativo de memória afetiva?

Sadie suspira.

— Eu sei que fui covarde, s/n... eu devia ter falado com você antes. muita coisa aconteceu. eu tava uma bagunça.

— E eu tava o quê? um origami? — retruco na lata.

Ela dá um sorrisinho culpado. dá pra ouvir no tom.

— Você sempre foi mais forte que eu.

Eita. Aí dói.

Fico quieta uns segundos. Minha mão coça pra desligar. Mas minha curiosidade é pior que eu.

— Onde cê tá? — pergunto, meio irritada, meio tentando fingir que não tô tremendo.

— No centro. Num café. Oda esquina do mercado... Sabe qual é.

Claro que eu sei. era o nosso ponto de fuga.

— Tá — respiro fundo — E você quer o quê? Que eu desça igual cena de filme enquanto toca música triste? Que eu sente na mesa e a gente finja que não tem um cadáver emocional entre nós?

Sadie dá uma risada abafada.

— Eu só quero conversar, s/n.

Fico encarando a porta da cozinha. o mundo inteiro quieto.
Não sei se é saudade, raiva ou as duas fazendo strike em mim.

— Me dá 20 minutos.

— Sério? — ela solta, esperançosa.

— É. Mas se você vier com papinho eu te deixo falando sozinha no meio da rua, juro.

— Eu aceito o risco — ela ri.

— Tchau Sadie.

— Até já.

Desligo .

Apoio as duas mãos na pia e solto um "puta merda" baixinho.

Saudade é um trem desgraçado.

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⏰ Última atualização: Jan 18 ⏰

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𝚅𝚊𝚒 𝚍𝚊𝚛 𝚌𝚎𝚛𝚝𝚘?-𝚂𝚊𝚍𝚒𝚎 𝚂𝚒𝚗𝚔Onde histórias criam vida. Descubra agora