sábado de manhã.
as luzes atravessaram parcialmente as cortinas brancas de seda do quarto de chaeyeon e brincaram com sua vista. ranzinza pela manhã, bufou, lembrando-se de que hoje era dia de trabalho e que odiava acordar atrasada.
com a carranca um pouco fechada, tentou arrumar um sorriso assim que encarou seu reflexo no espelho. estava quase alinhando perfeitamente, quando que por um sinal, lembrou-se da noite anterior e o quanto que as gotas de chuva caindo mortalmente sobre suas bochechas combinavam com a tristeza trovejante.
eram poucos relances: sakura em seus braços, os cabelos ensopados e um soluço desesperado. ela lembrava de ter engolido em seco e buscado com os olhos com pressa algo que pudesse justificar uma escapatória para bons pensamentos. quem diria! logo ela, sakura, a garota mais doce e positiva de todo o bairro, não conseguindo fazer qualquer outra coisa que não fosse trovejar mais até mesmo que o próprio céu. chaeyeon acompanhava tudo de braços bem apertados envolto seu corpo, sussurrando amigavelmente que tudo iria ficar bem.
mesmo que não estivesse.
naquela noite chuvosa, a cachorra da doce garota, miny, havia falecido atropelada por um carro desatento. chaeyeon gostaria de voltar no tempo só para ter os sorrisos reconfortantes e despreocupados de uma sakura elétrica de felicidade a brincar com a cachorra enorme e desengonçada.
era sempre tão bom passear com a bichana autêntica e imparável. chaeyeon conseguia dizer que gostava cada vez mais do que fazia, mesmo que ganhasse poucos trocados. e talvez isso fosse também só uma desculpa para que ela nunca admitisse em voz alta sua ânsia daquele sorriso sereno, da janela, assistindo sakura rir como uma criança.
ela podia ter quebrado a perna e chaeyeon realizar a tarefa apenas durante o verão. mas aquele foi mais do que apenas um verão.
dizem que alguns sopros, por mais imperceptíveis que possam ser, carregam consigo uma força poderosa de paixão. eles podiam perder a conta de quantas vezes esse sentimento agarrava as pessoas pelas pernas e fazia um nó: e lá se vai mais uma vítima ao chão! chaeyeon estava ciente de que era uma dessas pessoas, mas não se incomodava muito com a terrível sensação. isso se ao menos pudesse falar que era terrível! terrível mesmo era saber que a garota veranista dos seus sonhos chorava em silêncio, provavelmente em seu quarto, por perder um outro amor em sua vida...
ela sabia que não poderia reinventar o destino e chegar a tempo, impedir o carro. chaeyeon tentava se contentar com o presente e o que a sua mera existência podia contribuir para que aquele episódio se tornasse um pouco menos sufocante.
decidida, desceu as escadas e começou a organizar uma pequena marmita para a amiga. a mãe de chaeyeon sorriu para a filha, impressionada com a determinação dela. quando se ama, qualquer pequeno ato vale a força que você reluz na direção do sol: as pessoas se confundem quem é o verdadeiro astro.
despediu-se da mãe, montou em sua bicicleta no quintal e saiu a pedalar em direção à casa da doce garota. seu coração batia tão rápido, mas ela não sabia dizer se era porque tudo era muito injusto ou se o amor fazia isso com as pessoas. as coisas andavam muito tristes e desordenadas. chaeyeon só queria que bastasse, ao menos uma vez, antes que mais uma oportunidade fosse desperdiçada. tudo iria passar, ainda que fosse impossível se olhar no espelho e sorrir fielmente.
desceu devagar assim que chegou no portão de madeira do quintal de sakura. os brinquedos de miny ainda estavam espalhados pela grama e ela quase deixou derrubar uma lágrima. respirou fundo, retirou a marmita da cestinha na frente da bicicleta e passou a atravessar o quintal.
quando chegou em frente à porta, tocou a campainha e esperou com o melhor olhar de afeto que podia. chaeyeon estava aguentando tanto quanto sakura. miny era mais que um simples cachorro.
ela era uma vida cheia de amor.
quando sakura atendeu, com os olhos cansados e os cabelos bagunçados, chaeyeon entendeu que a garota ainda não havia saído da cama, mas que provavelmente dormiu muito pouco.
sorriu tristemente, levantando a mão que segurava a marmita:
— não estou pedindo para que fique tudo bem, até porque eu sei que não está. e nem vou te forçar. isso é injusto, coisa que nós esperamos da vida. eu te fiz essa marmita e espero que a minha presença possa tornar as coisas um pouco menos sufocantes. o que você acha?
sakura sorriu de leve em sua direção e a respiração de chaeyeon soltou de uma vez. ela não sabia que estava segurando, aflita dos próprios sentimentos e da tristeza da garota mais doce e incrível que ela conhecia.
— você não existe, chaeyeon.
as coisas vão ficar bem, ela pensou. não por agora, mas eu sei que uma hora vão. e nós estamos aqui, vivendo, pra isso.
não, sakura.
você que não existe.
🌸
oi! faz bastante tempo que eu não escrevo nada novo. se gostou, deixa uma estrelinha. créditos à mari kimlipstick pelo plot perfeito. recomendo o livrinho dela também. têm muitas idéias ótimas!
— cali.
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𝐀𝐍𝐀𝐓𝐀 𝐍𝐀 𝐀𝐍𝐀𝐈𝐃𝐄𝐒𝐇𝐈𝐓𝐀
Fanfiction❝chaeyeon consegue poucos trocados ao levar os cachorros da vizinhança para passear, mas gosta do que faz. toda semana, passa pela casa da doce garota dona de uma cachorra muito esperta. porém, após a morte do animal, chaeyeon se vê enfrentando um t...