XVI

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Segunda-feira.

Acordo com um estrondo — a porta do quarto se fecha com tanta força que parece que alguém tentou expulsar o demônio na marra. Resmungo palavrões dignos de censura e tateio até meu celular no criado-mudo.

06:35 da manhã.

Atrasada. Só um pouquinho. Mas sinceramente? Nem me importo. Acordar cedo já deveria ser considerado uma forma legalizada de tortura.

Me arrasto até o banheiro, tomo um banho rápido — tipo, liguei a água e saí correndo — só pra enganar o cansaço. Escovo os dentes enquanto encaro minha cara amassada no espelho.

Me visto sem pensar muito: calça preta rasgada no joelho, blusa branca comprida, tênis preto que já viu dias melhores. Prendo o cabelo num rabo de cavalo meio torto. Sim, o estilo "acordei e fui" também é uma escolha estética, ok?

Pego a mochila jogada no canto, ainda vazia, e jogo dentro só as coisas que comprei no shopping com o Jimin — que, aliás, nem eram materiais escolares, mas sim "armas" para minha sanidade.

Enfio o celular no bolso da calça e, quando passo de novo em frente ao espelho, algo grita "incompleto".

Ah, claro. Meu batom vinho.

Pego o danado em cima do criado-mudo e passo nos lábios como se estivesse me preparando pra uma guerra estética. Agora sim, pronta para encarar o inferno.

Saio do quarto e sigo pelos corredores em direção ao refeitório. Vazio. Um silêncio tão assustador que me faz pensar se acidentalmente não acordei no cenário de um apocalipse zumbi.

"Todo mundo já deve estar nas aulas..." — penso, bufando alto o suficiente pra espantar qualquer fantasma.

Pego uma maçã e um sanduíche que parece ter sido feito por alguém sem alma, e vou vagando pelos corredores enquanto mastigo em paz, como uma gótica desnutrida em missão reflexiva.

Depois de destruir meu "café da manhã" improvisado, me arrasto até a aula de História — que, sinceramente, nem é tão ruim... se você curtir ouvir alguém contar tragédia atrás de tragédia por 50 minutos.

Paro na frente da porta fechada e bato, esperando aquela recepção padrão de professora mal-humorada. Mas não.

A porta se abre, revelando uma mulher de cabelos longos, olhos escuros como a alma do Henrique e um vestido minúsculo com um decote que parece competir com o Grand Canyon.

??? — Olá, no que posso ajudar?

Dou um sorrisinho debochado e arqueio uma sobrancelha.

Babi — Essa é a aula de História... ou de anatomia prática?

A professora abre a boca, pronta pra soltar alguma coisa, provavelmente mais um discurso dramático de autoridade ofendida. Mas antes mesmo de sair som, ela congela — a diretora surge na porta, acompanhada por um garoto que eu nunca vi antes.

Cabelos pretos caindo de forma displicente na testa, olhos negros intensos, uma expressão entediada de quem parece já ter vivido essa cena mil vezes. Até que o bendito é bonito... mas não tô em clima pra babar agora.

Diretora — Olá, professora Jheny. Algum problema por aqui?

A voz dela é calma, mas tem aquela pitada de "não tenho paciência pra drama matinal". Antes que a querida professora tenha a chance de soltar uma mentira bem elaborada, dou um passo à frente e abro meu sorriso mais sarcástico — digno de premiação.

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