Capítulo 2

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— Vennia! — a Sra. Hope gritava a pleno pulmões com o rosto quase avermelhado. — Peço, por todos os santos, para que você desça já dessa árvore.

— Ah, vovó Hope, não pude resistir a estas lindas flores de cerejeira. Veja que formosura! — Vennia esticou os braços, para apanhar as pétalas sob o constante olhar de apreensão de Hope. — Fiz uma tiara de flores para Miriam. Agora ela ficará igual a uma princesa.

— Ora, sua menina arteira! És mesmo uma ventania, menina. Uma ventania que só me dá profundas enxaquecas.

— Sei que a senhora me ama do fundo do coração — ela sorria com doçura.

A Sra. Hope não conseguia ficar zangada de forma alguma com Vennia. Todavia, às vezes a senhorinha desejava que a neta fosse um pouco menos travessa. Vennia vivia com o rosto sujo e suado, os cabelos curtos e eriçados, além do fato de sempre andar com os vestidos amarrotados. Hope já havia desistido de tentar fazer com que Vennia se comportasse de forma mais dócil. Era impossível, tal como era uma ventania agir como uma brisa.

— Mas pode explicar-me o motivo de tantos risos? Por certo que nunca a vi tão contente.

— Tive um sonho fantástico ontem à noite. Porém, o sonho não durou muito e logo tive que acordar por conta do canto insistente do galo. — Vennia fechou os olhos e abriu os braços.

— És muito sonhadora, menina. Seu corpo está na terra, mas a sua cabeça insiste em flutuar nas nuvens. Adiante-se, Vennia, pois quero que cuide de Miriam enquanto vou ao mercado a negócios. Vamos, minha querida neta, e desça dessa árvore. Em outra hora, você volta a sonhar com o teu formoso sonho.

Sua avó despediu-se dela e partiu para o mercado.

Vennia suspirou chateada, não querendo descer da cerejeira em flor. Passou a coroa de flores no braço fino enquanto descia a árvore, tomando cuidado para não se estatelar ao chão como uma fruta madura que cai do pé. Caçou as botinas que jaziam jogadas ante a raiz e saltitante como um coelho, passeou pela campina, colando folhas de grama na barra de seu vestido e sujando o solado de seus sapatos na terra molhada e pastosa, indo em direção a Miriam, que jazia a esperá-la do lado de fora da casa.

— Fiz para ti, Miri, agora ficará linda como uma princesa — coroou a cabeça da irmã mais nova com a tiara de flores de cerejeira.

— Obrigada, Venni — Miriam abriu um sorriso largo.

— Acabei de ter uma ideia, e se nós mesmas construirmos um castelo à beira do rio? Toda princesa precisa de um castelo. Podemos fazer o nosso castelo com as pedras brilhantes que tem na margem do rio. Vi umas que são realmente bonitas. Podemos empilhá-las... o que acha?

— Mas a Vovó não disse que não devemos nos afastar de casa? Não acho que seja uma boa ideia, irmã.

— Ora, vamos. O que há de mal? O rio não fica muito longe daqui, e não vamos nadar nele.

Vennia levou Miriam para um rio que por ali havia, pois fazia uma agradável sombra devido às muitas árvores, e trataram de recolher todas as pedras que encontravam à margem da água corrente. O maior problema para Vennia fora quando deu defronte com um grupo de meninos nada gentis. Detestava-os. Inventaram uma cantiga maldosa e cantavam sempre que a viam.

Vennia, a tão aborrecida Vennia. Cabelo curtinho, parece um menino. Tão magrinha, o rosto cheio de pintinhas, ninguém há de querer, uma menina tão sem graça e tão desengonçada.

Oh, como tal desfeita fazia Vennia odiá-los com fervor. Desejava do fundo do coração que mordessem a língua e padecessem lentamente. Agachou-se e apanhou um punhado de pedrinhas à beira do rio e atreveu-se a jogar neles. Errou. Estava demasiado longe para acertá-las, ademais, os tresloucados moleques continuavam rindo dela aos montes.

VENNIA [COMPLETO NO KINDLE]Onde histórias criam vida. Descubra agora