Quando a luz entra pela fresta da janela, estou acordada. Não dormi muito bem essa noite, não sei se pelo excesso de pensamentos, pela mudança de fuso horário depois da última viagem, ou pelos dois. Meu celular desperta em cima da mesa de cabeceira e o pego apressada, desligando o som estridente. Preciso me levantar e terminar de arrumar minha mala, mas dou um tempo. Estou me sentindo esquisita. Apesar das férias do trabalho apontar para uma mudança significativa na minha rotina, que é exatamente o que estou precisando, não sei dizer o porquê de toda essa estranheza até olhar o calendário no celular.
28 de janeiro de 2019. Dois dias para o meu aniversário, data que passou a não fazer sentido algum. Faz um ano que meu pai se foi e a sensação é que revivo aquela noite quase todos os dias. Ainda me lembro de todo o caos no aeroporto, da voz de desespero da minha mãe ao telefone, do toque grosseiro das lágrimas em meu rosto, do vazio que até então desconhecia. Toda essa ausência, esse nada, se tornou um estado atemporal, profundo e ilimitado em minha vida e demorei a perceber que estou vivendo nele.
Vou até o banheiro, lavo o rosto na água gelada e escovo os dentes. Espero que o período de férias resolva minhas olheiras. Meu intuito é arrumar a cama antes que eu me sinta tentada a deitar de novo, mas quando me aproximo, noto o papel ao lado do celular. O dia da primeira audiência indenizatória pela morte do meu pai naquele voo estava chegando e eu sei que preciso me preparar, por isso resolvi passar meu aniversário em Petrópolis, na casa dos meus pais. Não quero comemoração alguma, só preciso tentar colocar a cabeça no lugar. Sigo até a cozinha sem nenhuma animação para fazer meu café, mas levo um susto ao escutar o interfone tocar, pois não estou esperando ninguém.
— VISITAAAA! — Escuto a voz estridente de Aline, a primeira amiga que fiz na empresa quando me mudei para São Paulo.
Abro o portão e em menos de cinco minutos ela entra pela porta da minha cozinha com as duas mãos cheias de sacolas, como se estivesse voltando da feira.
— O que é isso? — pergunto e tento ajudá-la, levando as bolsas para a mesa.
— Feliz aniversário! — Aline abre os braços depois de se desvencilhar das sacolas e me abraça. Dou um sorriso amarelo, mas estou surpresa por ela ter se lembrado. Ela tem a memória pior do que a minha. — Já que você vai viajar para o Rio, resolvi tomar o café da manhã da minha folga com você, sinta-se importante!
— Você é terrível! — comento, mas a ajudo a arrumar a mesa e nos sentamos. Pelo menos me livrei de comer qualquer coisa velha da minha geladeira.
— Eu não deixaria isso passar em branco, sei como essa semana deve estar sendo difícil para você.
— Obrigada por ter vindo, amiga. Mas não estou muito para comemoração.
— Por isso trouxe o café! — Aline pisca um de seus olhos verdes para mim. — Agora, que roupa é essa? Está precisando de pijamas novos?
Só então eu reparo. Estou com uma camisa de manga preta manchada e um short surrado. Aline é apaixonada por moda, então ela se incomoda mais com o que visto do que eu mesma.
— Eu uso qualquer coisa para dormir!
— Percebi! — Ela revira os olhos. — Desse jeito só vai atrair embuste, já te falei.
— Eu não quero atrair nada por um bom tempo! Depois do Leo, minha única expectativa com relacionamento é que ele demore bastante para reaparecer para mim. — Passo manteiga no pão australiano que Aline trouxe, meu preferido.
— Falando nele, viu que marcou a data do casamento com aquela garota? Mirela, Milena... Não lembro o nome.
— Fernanda, do RH lá da empresa — confirmo. Não entendo como chegamos a este assunto. Se meu dia já parecia ruim, agora piorou.
— Essa mesma, que tem aquela voz de que parece dublagem. — Sou obrigada a rir.
— Ele deve estar na reunião, é o advogado de lá, né?
— Peguei uma raiva da cara dele... Ninguém merece o que fez com você, Catarina. Te abandonar no pior momento da sua vida? Somente depois de um mês que você perdeu seu pai? O que ele tinha na cabeça? Ainda bem que você se livrou desse idiota!
— Na dele, não sei. Na minha provavelmente tinha chifres! Mas ele jamais vai admitir!
— É estranho ele começar a namorar logo depois de terminar com alguém que trabalha com ele. O que quer que você pense? — Aline completa.
— Ele era um cara legal, não sei quando foi que isso se perdeu. Mas, enfim, acabou. É o que importa. Só espero que ele seja decente com relação a essa reunião, porque meu pai não tem nada a ver com isso. E nem todas aquelas sessenta e cinco pessoas que morreram.
— Parece que a garota que sobreviveu ainda continua em coma. Acho difícil sair depois de tanto tempo... — Aline comenta, a televisão só fala disso. O marco de um ano do acidente tem mostrado muitas reportagens e por esse motivo mantenho a TV desligada.
— É, é uma pena.
— Eu não sei como você consegue continuar voando com eles depois de tudo.
— Preciso do dinheiro, amiga. Tenho um contrato e preciso ajudar minha mãe até essa indenização sair — afirmo.
— Você quer companhia? Para a reunião. Tenho que olhar minha escala, não sei se vou estar de folga — Aline sugere.
Penso por um instante. Não sei se me sinto segura o suficiente para enfrentar esse momento. Em parte, por se tratar do acidente que matou meu pai, e por outro lado, o advogado com o qual estarei fazendo o acordo é meu ex-namorado que vai se casar com outra. Sempre soube que não seria fácil, mas conforme o dia se aproxima, a insegurança me aflige. Acho que não vale a pena envolver mais ninguém nessa história. Sei que ela quer ajudar, mas também sei que preciso fazer isso sozinha.
— Não precisa, de verdade. Meu advogado vai. Eu consigo. — A encaro para confirmar que está tudo bem.
Quero acreditar que está. Ou pelo menos fingir. Essa tem sido minha especialidade há um ano.
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Enquanto eu puder voar
RomanceEm seu aniversário de trinta anos, um ano após perder seu pai em um acidente aéreo, a comissária de bordo Catarina se vê diante de um dilema ao encontrar indícios do possível motivo da viagem que o matou. O que ela não esperava era que sair em busca...
