CRGO06
Um desabafo necessário sobre concursos literários e a banalização da crítica
Nos últimos concursos literários que participei, percebi um padrão perturbador nos feedbacks que venho recebendo. Palavras genéricas, observações mecânicas, uma repetição vazia de termos como "boa ambientação", "personagens com potencial", "precisa de mais ritmo", como se minhas obras fossem analisadas por um filtro automático, não por alguém com olhos e alma atentos ao texto. E comecei a desconfiar — com base no vocabulário, na estrutura e até nos erros recorrentes — que muitos desses “jurados” estão, na verdade, terceirizando suas análises para inteligências artificiais.
Isso é mais do que frustrante. É um desrespeito.
Não contra mim apenas, mas contra todos os escritores que se dedicam, que reescrevem capítulos até a exaustão. A crítica literária, quando bem feita, é uma ponte entre leitor e autor. Quando é substituída por uma IA genérica, essa ponte desmorona. Deixa de ser diálogo e vira relatório.
Se um jurado não está disposto a ler, interpretar, sentir e refletir, então talvez não devesse ocupar esse papel. Crítica não é sobre gerar um parágrafo automático com elogios tímidos e correções superficiais. Crítica é arte, é escuta ativa, é empatia intelectual. E é, acima de tudo, responsabilidade. Porque um bom feedback pode mudar uma carreira. Um raso, feito às pressas (ou por uma máquina), pode apenas desestimular quem está tentando crescer.
Não sou contra a IA. Eu mesmo uso para estudo, converso com ela. Mas existe uma diferença clara entre usar como ferramenta de apoio e usá-la como substituto da própria leitura. E se concursos literários começam a caminhar para esse segundo modelo, então estamos regredindo — não evoluindo.
CRGO06
@ MichelMor Você traduziu exatamente o ponto central: usar como ferramenta, não como muleta. A IA, quando bem aplicada, é um apoio fantástico seja pra revisão, brainstorm, até pra testar estruturas e possibilidades narrativas. Eu também uso, e com frequência. Mas entre usar para criar com mais precisão e usar para não precisar sentir, existe um abismo.
O q me inquieta é quando vejo jurados qur deveriam ser leitores experientes, críticos atentos, quase cúmplices da criação — delegando a uma IA o papel de interpretar, avaliar e responder. Isso não é mais ferramenta, é atalho. E o problema do atalho é que ele pode economizar tempo, mas também passa por cima da escuta, do cuidado, do vínculo.
O seu comentário reforça algo que eu acredito: o problema não é a tecnologia, é o desinteresse disfarçado de eficiência. Escrita com alma merece leitura com alma. E quando isso vira exceção, a gente precisa levantar a voz, nem que seja num desabafo.
Obrigado por ter comentado com tanta lucidez. É bom saber que tem gente que ainda enxerga a diferença entre criar e apenas gerar conteúdo.
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MichelMor
@SrtaAlencar Eu também acho isso, vejo alguns concursos, leio as regras, vejo as premiações e observo quem são os examinadores... na maioria das vezes nem me inscrevo, porque sei que são pessoas buscando seguidores, inflando sua contas e no final, na hora de interagir com seu publico, não dão uma única resposta.
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SrtaAlencar
@MichelMor caramba! Cara, eu fui jurada recentemente de um concurso. Fiz minhas anotações dos pontos positivos e dos q precisavam de reforço. Elaborei um textinho sobre eles com sugestões de melhorias, tudo isso levou uns 10mins (sem contar a leitura claro)... Pq a ideia do concurso é vc ajudar o escritor... Isso ai parece mais uma maneira facil de conseguir seguidores que nem são tão importante assim... Sério, que preguiça.
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