Henggo
Ter DIPLOMA não te faz um ESCRITOR SUPERIOR
A literatura não é concurso público. Não há cargo vitalício nem hierarquia garantida por certificado. Diante da experiência de já ter recebido diplomas de Medicina e Direito de pessoas que tentaram me humilhar, precisamos refletir sobre ego, prática de escrita e competitividade.
1. Diploma é ferramenta, não troféu. Serve para nos dar mais conhecimento, porém, não é aval para nos colocarmos acima dos outros.
2. Escrita criativa se constrói no texto, não no currículo. Página escrita vale mais que linha no Lattes.
3. Há grandes escritores sem formação acadêmica formal e isso nunca os tornou menores.
4. Do mesmo modo, há pessoas formadas que nunca terminaram um livro. Título não garante fôlego, nem coragem de ir até o fim.
5. Leitura e prática valem mais que certificados. Você pode ter dezenas de diplomas, mas, na escrita criativa, só avança quem lê e escreve com constância.
6. Técnica literária se aprende estudando dentro ou fora da universidade. O saber não está condicionado a prédio, banca ou diploma.
7. Experiência de vida também forma escritor. Dor, trabalho, fome, amor, exclusão e sobrevivência também ensinam linguagem.
8. Vamos falar sobre Carolina Maria de Jesus?
Carolina Maria de Jesus escreveu sem diploma, sem universidade, sem aval da elite intelectual. Escreveu a partir da fome, do lixo, da favela. Escreveu literatura brutal e honesta. Mesmo assim, até hoje, há quem torça o nariz. Há quem diga que ela é “importante socialmente”, mas não “literariamente”. Há quem tente empurrá-la para a prateleira do documento, não da arte.
Isso diz muito menos sobre Carolina
e muito mais sobre quem acha que literatura precisa de carimbo para existir.
Se diploma fosse critério de grandeza literária, Carolina jamais teria entrado no cânone. Mas entrou — à força do texto. E é exatamente isso que incomoda.
Incomoda porque a literatura só reconhece uma coisa: palavra viva na página.
Nataruska
@Henggo Sem dúvida. Aqui em Portugal nas últimas décadas o acesso universitário tem sido mais alcançável. No entanto esse pensamento continua a manter-se. Corro até o risco de dizer que se intensificou a má atitude porque há muitos mais com a possibilidade de espezinhar o próximo só porque sim. Nunca me esqueço de uma professora de desenho que tive na faculdade, e que eu até considerava, reagir com desdém a uma reportagem sobre um artista escultor que não tinha braços e usava os pés para trabalhar os materiais. Ela chegou inclusivamente a dizer que era um desperdício ocupar uma das 50 vagas que existiam no curso de escultura (Na faculdade de Belas Artes e que não era a a minha faculdade) e que estaria a tirar o lugar a quem tinha todos os membros e por consequência conseguiria executar um trabalho de melhor qualidade artística. Naquele dia deixei de "aprender arte" com ela e limitei-me a apenas aprender as técnicas. Porque alguém que tem esta perspectiva não é artista, é apenas um executante de pá na mão.
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Henggo
@ Nataruska Pois sim, muitos ainda tomam a escrita como um lugar de diferenciação; um lugar que simboliza uma espécie de "superioridade intelectual". Some isso a uma série de questões de classes sociais e temos um problema.
Aqui no Brasil, apesar de todas as políticas de inclusão, chegar à universidade ainda é para poucos. Ainda é muitos difícil alguém da periferia ter esse tipo de ascensão social. Consequentemente, pelo fato de as universidades terem passado décadas sendo um espaço da elite, a sociedade continua percebendo o diploma universitário como algo de superioridade em todos os sentidos — inclusive, com muitos achando que ter um diploma é uma desculpa para pisar nas pessoas. E todos esses sentimentos passaram para as artes em geral.
O fazer artístico é muito difícil de ser mensurado, pois é sentimental, emocional, intuitivo. A pessoa pode passar uma vida estudando Artes Plásticas, por exemplo, e nunca ser capaz de transmitir em uma tela as emoções que um artista de rua consegue.
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Henggo
@emilia_schneider Os diplomas universitários nos ajudam a ter mais disciplina e compreender que há um método, porém, não necessariamente melhoram a escrita criativa. É uma relação que ainda confunde muito.
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