Quando eu era nova, gostava de ler devagar.
Havia algo nas palavras que não se entregavam de imediato e eu fazia delas um pequeno jogo: relia, buscava sentidos, traduzia para mim mesma como quem decifra um mapa antigo.
Não era só leitura, era curiosidade...quase um prazer secreto.
Com o tempo, fui mudando o modo de falar e de escrever. O bullyng e a pressa do mundo pede frases curtas, diretas e coloquiais.
Aprendi do pior jeito: " - Tu estás a gozar da minha cara?".
A vida comum pedia: tipo isso, mano do céu, meu.
Tá me zoando?
As palavras passaram a servir mais ao uso do que ao encanto e eu aceitei isso sem resistência. Era mais fácil, mais rápido, o idioma da sociedade moderna. Pelo menos dos anos 90!
Mas quando decidi retomar uma escrita de tom medieval, percebi que não bastava lembrar: era preciso voltar a estudar. As estruturas, os ritmos, as escolhas... tudo exigia atenção outra vez.
A língua exigia uma espessura que eu havia esquecido que existia.
No início eu tropecei. E dá-lhe Google e pesquisas. Depois, reconheci antigos caminhos.
E há nisso um prazer inesperado. Escrever assim é como vestir um traje antigo, pesado e belo, que obriga o corpo uma outra postura.
No fundo, é muito bom escrever de forma "chique"...não por vaidade, mas porque a língua, quando elevada, nos pede mais do que damos no dia a dia.
E rir disso, no final, faz parte. Afinal, aprender também pode ser leve!