O Último Show
"O circo pegava fogo — e não era no sentido figurado. O público gritava em delírio por cada personagem que, diante de seus olhos, parecia tão real que havia quem acreditasse poder tocá-los. De Ômegas orgulhosos a múltiplas personas, eles desempenharam seu melhor papel em cada microssegundo que o holofote os iluminava...
Até que o apresentador caminhou até o centro do picadeiro. Ele olhou em volta, encarando cada rosto na plateia, e anunciou com um orgulho quase cruel o próximo capítulo. Aquele que todos tanto esperavam. Ele estendeu a mão, apontando para a cortina escarlate:
— Para todos os presentes, apresento o Grande Palhaço!
O som dos tambores subiu, criando aquele suspense que arrepia a alma. A plateia se levantou, as mãos prontas para o aplauso, as cortinas se abriram e então... nada. Absolutamente nada.
A confusão tomou conta. Alguns ainda tinham esperança, mas o palhaço não apareceu. O apresentador permaneceu em silêncio, com um sorriso sutil, como se já esperasse por aquela desilusão nos olhos dos presentes, por aqueles murmúrios de insatisfação. Ele pediu calma e o silêncio retornou.
— Bem... é isso. Nosso espetáculo chegou ao fim — ele respirou fundo. — Finalmente.
Sem explicações, ele simplesmente virou as costas. Um estalo seco. Um som de tiro vindo da escuridão. O apresentador desabou no chão, o corpo imóvel. O mundo, que até então era preto e branco, tingiu-se de um vermelho vivo que se espalhava pelo picadeiro.
Entre os gritos de terror, todos olharam para cima, em direção à marquise. Lá, nas sombras, o Grande Palhaço sorria. Não era um sorriso doce, nem nervoso. Era um sorriso de alívio puro.
— Acabou.”