Lacuna!
Às vezes me sinto só —
mas não é ausência.
É você em excesso,
ecoando onde não está.
Seu cheiro apodrece nos cantos,
impregna as paredes,
e em cada sombra
eu quase te encontro…
quase.
Mas é mentira.
Sempre foi.
Verso após verso,
entre delírios febris e silêncios longos,
eu te escrevo
como quem invoca um fantasma
que nunca responde.
Te quero —
e isso me corrói por dentro
como algo vivo demais
para morrer.
Não posso te ter,
a não ser nesse altar distorcido
do meu olhar.
Entre sonhos turvos e linhas tortas,
vivemos um romance que não respira.
Porque fora daqui,
somos estranhos —
frios,
intactos,
indiferentes.
E ainda assim,
meu coração insiste
nesse ritual inútil:
bater,
doer,
te chamar
em silêncio.
Você deseja o que não me pertence.
E eu…
eu só queria afundar
nesses cabelos negros como noite sem fim,
provar o veneno lento dos teus lábios,
e aprisionar teus olhos
dentro dos meus —
onde nada escapa.
Decidi ficar só.
Não por escolha,
mas por condenação.
Desde que você se infiltrou em mim,
como uma sombra paciente,
não houve espaço
para mais ninguém.
Porque o que você deixou
não foi amor —
foi uma presença.
E ela ainda vive aqui.
A você!
L.D