Existe um instante — quase imperceptível — em que tudo hesita.
É breve. Suspenso. Delicado como o ar antes da chuva.
Um segundo em que a dúvida ainda segura sua mão, mas a vontade… ah, a vontade já te puxa de volta.
Foi nesse espaço, tão pequeno quanto infinito, que eu reaprendi a existir.
Por muito tempo, calei.
Não por falta de palavras — elas gritaram dentro de mim — mas porque havia uma guerra silenciosa acontecendo sob a superfície. Um inimigo sem rosto, sem nome fácil, daqueles que não deixam marcas visíveis, mas reescrevem tudo por dentro.
E eu lutei.
Lutei em silêncio, em cansaço, em dias que não têm margem de retorno.
Até que, aos poucos — quase sem perceber — comecei a voltar.
Não foi um retorno grandioso. Não houve aplausos, nem viradas dramáticas.
Foi um reencontro suave. Um gesto tímido. Um respirar mais fundo. Um dia menos pesado que o anterior.
E então… a escrita me encontrou de novo.
Ou talvez eu tenha finalmente encontrado coragem para voltar até ela.
Escrever, agora, é diferente.
Carrego nas palavras tudo aquilo que antes eu não sabia nomear. Há pausas onde antes havia pressa. Há verdade onde antes havia apenas tentativa. Há vida — crua, sensível, imperfeita.
Escrevo por mim.
Escrevo por quem lê.
Escrevo porque, de alguma forma, isso me devolve para casa.
Ainda não cheguei ao fim da travessia.
Mas estou naquele instante precioso em que viver volta a fazer sentido. Em que o amor — mesmo que ainda em morada — começa a ocupar os espaços que a dor deixou.
E isso basta, por agora.
Se ainda houver memória de mim,
que seja essa:
A de alguém que se perdeu nas próprias sombras,
mas aprendeu a acender pequenas luzes.
A de alguém que caiu em silêncio,
mas escolheu voltar — palavra por palavra.
Porque, no fim, é assim que recomeço:
não com certezas,
mas com coragem suficiente para escrever…
mais uma vez. ✨