Nunca fui boa de conversar.
Sempre escutava.
Enquanto meus demônios lutavam contra mim mesma, minha boca dizia:
— Está tudo bem! — suspirava. — O que aconteceu hoje?
Uma agenda mental, automaticamente, era criada para anotar os males que atormentava-os. Às vezes, conhecidos demais para ser desconhecidos e conhecidos demais para não ser amigos.
Ele dizia, com uma voz rouca e chorosa, o quanto estava sendo machucado. Eu remendava, curava e ele saia.
Ela sentava e gesticulava compulsivamente, uma linha d'água formava sem seus olhos, estava tudo perdido. Ele machucou ela, ela machucou ele. Meus conselhos eram o seu remédio.
Até que, um dia, tomaram tanto, que ficaram drogados.
E a psicóloga perdeu seus pacientes.
Para sempre.
Ela não podia escutar mais a risada da amiga.
Ela não lia mais as bobeiras do amigo.
Tudo se foi perdido.
E tudo isso.
Por causa dela.
De mim.