ashseraph

Acredito em tesão à primeira vista. Naquela fissura imediata, animal, quase violenta.
          	
          	Acredito em obsessão à primeira troca de olhares — naquele segundo exato em que alguém invade a sua cabeça e começa a apodrecer tudo lá dentro. Acredito em paixão, em vício, em idolatria. Em ódio também. Porque amor e ódio têm o mesmo cheiro quando ficam tempo demais trancados no peito.
          	
          	Mas amor? Amor não nasce bonito.
          	Amor não acontece em câmera lenta, nem em poesia barata.
          	
          	Amor é construção.
          	É cimento misturado com sangue, dependência e rachaduras escondidas sob tinta fresca.
          	É acordar todos os dias e escolher permanecer mesmo quando a presença do outro começa a doer como abstinência.
          	
          	Pessoas confundem intensidade com amor porque nunca sentiram algo realmente destrutivo.
          	Porque obsessão parece romântica até virar insônia.
          	Até virar paranoia.
          	Até o nome da pessoa ecoar na cabeça como um ruído doente que nunca desliga.
          	
          	Prédios sem estrutura caem.
          	E pessoas sem estrutura amam assim: desesperadamente.
          	Como quem enfia as mãos nas próprias feridas só pra sentir alguma coisa viva ali dentro.
          	
          	No fim, talvez o amor nem seja o incêndio.
          	Talvez seja só o que sobra depois que tudo queimou.

ashseraph

Acredito em tesão à primeira vista. Naquela fissura imediata, animal, quase violenta.
          
          Acredito em obsessão à primeira troca de olhares — naquele segundo exato em que alguém invade a sua cabeça e começa a apodrecer tudo lá dentro. Acredito em paixão, em vício, em idolatria. Em ódio também. Porque amor e ódio têm o mesmo cheiro quando ficam tempo demais trancados no peito.
          
          Mas amor? Amor não nasce bonito.
          Amor não acontece em câmera lenta, nem em poesia barata.
          
          Amor é construção.
          É cimento misturado com sangue, dependência e rachaduras escondidas sob tinta fresca.
          É acordar todos os dias e escolher permanecer mesmo quando a presença do outro começa a doer como abstinência.
          
          Pessoas confundem intensidade com amor porque nunca sentiram algo realmente destrutivo.
          Porque obsessão parece romântica até virar insônia.
          Até virar paranoia.
          Até o nome da pessoa ecoar na cabeça como um ruído doente que nunca desliga.
          
          Prédios sem estrutura caem.
          E pessoas sem estrutura amam assim: desesperadamente.
          Como quem enfia as mãos nas próprias feridas só pra sentir alguma coisa viva ali dentro.
          
          No fim, talvez o amor nem seja o incêndio.
          Talvez seja só o que sobra depois que tudo queimou.

ashseraph

Ô diazinho filho da puta.
          Daqueles que começam podres antes mesmo do sol nascer.
          
          O tipo de dia que entra pela pele como ferrugem, corrói devagar, sem pressa, só pra ter certeza de que vai doer direito.
          
          Hoje tudo irrita.
          O barulho das pessoas, o jeito que respiram, as perguntas idiotas, os sorrisos falsos, essa porra de rotina repetida até virar tortura.
          Parece que o mundo inteiro acordou com a missão específica de empurrar mais um prego dentro da minha cabeça.
          
          E o pior é essa sensação absurda de incredulidade.
          Porque em algum momento eu realmente achei que as coisas iam melhorar.
          Achei mesmo.
          Que ingenuidade miserável.
          
          Mas a vida tem esse talento grotesco de pegar qualquer esperança pequena e esmagar na sola do sapato como se fosse nada.
          E você fica ali, encarando os próprios destroços, com um ódio tão profundo que já nem explode mais — ele ferve quieto.
          Frio.
          Pesado.
          Do tipo que apodrece por dentro.
          
          Tem raiva que passa gritando.
          Essa não.
          Essa transcende.
          
          É um cansaço violento de existir no meio de tanta falsidade, tanta decepção, tanta promessa vazia.
          Uma vontade irracional de desaparecer só pra não precisar olhar na cara desse circo mais um dia.
          
          Ô diazinho filho da puta.
          Tomara que acabe logo antes que eu acabe junto.

ashseraph

Egoísta? Eu?
          
          Você tem coragem de me chamar de egoísta depois de tudo?
          
          Eu escolhi você quando ninguém mais ficava. Escolhi você quando era mais fácil ir embora. Escolhi você quando você estava destruído, frio, ausente, impossível de amar. E ainda assim eu fiquei.
          
          Eu abandonei pedaços meus por sua causa. Pessoas. Lugares. Versões inteiras de mim. Enterrei tudo com as próprias mãos só pra abrir espaço pra você dentro de mim. E sabe o pior? Eu fiz isso acreditando que significava alguma coisa pra você.
          
          Enquanto eu me despedaçava tentando te carregar, você assistia. Quieto. Como se fosse normal me ver sangrar por amor.
          
          Então não. Não me chama de egoísta.
          
          Egoísmo é receber devoção como se fosse obrigação. É me deixar morrer aos poucos e ainda agir como vítima quando eu finalmente grito. Egoísmo é você pegar tudo que eu sacrifiqui e transformar em nada.
          
          Eu dei tudo. Tudo.
          
          E mesmo agora, com ódio, com nojo, com essa raiva doendo dentro do peito como vidro quebrado… eu ainda estou escolhendo você.
          
          É isso que me destrói.
          
          Porque eu devia te odiar.
          Mas alguma parte doente de mim ainda te ama.

ashseraph

"Claro que eu falo sozinha.
          É a única forma de ter uma conversa inteligente sem precisar suportar a mediocridade alheia."
          
          As pessoas chamam isso de loucura porque nunca ouviram a própria mente sem tremer. Eu ouço a minha todos os dias — cruel, arrogante, afiada — e ainda assim prefiro a companhia dela ao teatro patético que chamam de convivência.
          
          Existe algo deliciosamente doente em se bastar.
          Em rir sozinha no meio do caos.
          Em se olhar no espelho como quem encara uma deusa cansado demais para salvar alguém.
          
          Eu me aconselho porque sobrevivi a versões minhas que teriam destruído qualquer outra pessoa. E sinceramente? Nenhuma opinião me interessa muito além da minha. As outras vêm carregadas de medo, conformismo e pequenas morais inventadas por gente pequena.
          
          Então sim, eu falo sozinha.
          Com frequência.
          Com obsessão.
          
          Alguém nesta cabeça precisa manter o nível da conversa.

ashseraph

“Demonstra alguma coisa, caralho.
          Me rasga no meio, me odeia direito, me ama até apodrecer os ossos — mas para de existir pela metade.
          
          Eu tô cansado de tocar gente vazia, de ouvir promessas mornas saindo de bocas frias.
          
          Se for pra entrar na minha vida, entra como incêndio: destrói tudo, deixa fumaça, deixa marca nas paredes.
          
          Porque eu já sobrevivi silêncio demais pra aceitar migalha emocional disfarçada de amor.
          
          Então demonstra.
          Nem que seja pra me destruir.”

ashseraph

Yukihime vive em silêncio,
          mas o silêncio nunca foi paz —
          é só o jeito mais bonito que ela encontrou de apodrecer sem fazer barulho.
          
          Talvez um dia ela canse.
          Canse de fingir que aguenta,
          de dormir com o peito pesado e chamar isso de costume.
          
          E quando as lágrimas finalmente descerem sem orgulho, sem poesia, sem defesa,
          lavando o rosto como quem confessa um crime antigo,
          talvez exista paz.
          
          Ou só o cansaço definitivo de quem perdeu a guerra dentro de si há muito tempo.

ashseraph

Haja paciência nesse caralho.
          Porque tem dia que até o inferno parece silencioso demais pro barulho que a mente faz.
          
          Serafim já não reza. Range os dentes.
          Carrega no peito uma fumaça escura, dessas que queimam devagar, sem pressa de matar — só de apodrecer por dentro.
          
          A raiva virou mobília.
          Sentou à mesa, dormiu na cama, bebeu do mesmo copo.
          E o pior: ninguém percebe.
          Porque existe um tipo de ódio que não grita. Só apodrece o olhar.
          
          Haja paciência.
          Pra suportar gente vazia falando de esperança como quem acende vela em casa abandonada.
          Pra continuar respirando quando o peito parece um corredor escuro cheirando a mofo, sangue velho e lembranças que nunca morreram direito.
          
          Serafim anda pelas madrugadas como um fantasma mal enterrado.
          Bonito de longe. Assustador de perto.
          Tem fogo nos olhos e cemitério na alma.
          E essa calma dele… essa calma é o que mais mete medo.

ashseraph

Nem todos os caminhos levam a Roma.
          Alguns só levam de volta pro mesmo quarto escuro, pro mesmo teto mofado, pro mesmo vazio que apodrece em silêncio enquanto o relógio continua cuspindo horas na parede.
          
          Relógios sabem contar tempo, Serafim.
          Mas nunca souberam contar destinos.
          Nunca souberam medir a distância entre um corpo vivo e uma alma já estragada.
          
          Os ponteiros giram como facas lentas.
          Cortam dias. Cortam nomes. Cortam gente.
          E no fim, tudo que sobra é essa fumaça amarga no peito, essa raiva febril queimando por dentro como igreja pegando fogo de madrugada.
          
          Porque existem caminhos que não salvam ninguém.
          Só afundam devagar.
          Só transformam o homem em fantasma antes da morte chegar.
          
          E você continua andando mesmo assim, não por esperança — esperança é coisa de quem ainda dorme em paz —
          mas porque parar seria admitir que o vazio venceu.
          
          Então anda, Serafim.
          Anda com os bolsos cheios de cinzas e os olhos cheios dessa violência cansada.
          O relógio ainda respira na parede.
          E cada tic-tac soa menos como tempo…
          e mais como uma contagem regressiva.
          
          O Serafim sou eu.
          Essa é uma carta aberta a mim mesma.
          
          Adeus.

ashseraph

Você ainda lembra de mim
          como eu lembro de você?
          
          Porque eu lembro.
          Lembro de um jeito errado.
          Doente.
          
          Como quem mantém um corpo vivo dentro do porão só para ouvir a respiração falhar aos poucos.
          
          Eu lembro da sua voz nas madrugadas mais podres, lembro do gosto metálico do silêncio depois das nossas últimas palavras, lembro de cada ausência sua como quem conta cicatrizes com a ponta dos dedos no escuro.
          
          Você seguiu vivendo, eu sei.
          Mas eu fiquei aqui — preso na penumbra daquele último olhar, apodrecendo devagar dentro da versão de nós que nunca morreu em mim.
          
          E às vezes eu penso que isso é minha vingança.
          Não te odiar.
          Não esquecer.
          
          Porque enquanto o tempo te limpa de tudo o que fomos, eu continuo carregando você como um cadáver amarrado ao peito.
          Frio.
          Pesado.
          Cheirando a saudade estragada.
          
          Então me responde, só dessa vez:
          você ainda lembra de mim
          como eu lembro de você…
          ou fui apenas eu quem ficou assombrando o que sobrou?

ashseraph

Toda ferida nasce do atrito entre a carne e o mundo.
          Da vida raspando os ossos até arrancar pedaços que nunca voltam inteiros.
          
          Existem dores que não sangram por fora — apodrecem quietas, debaixo da pele, como lembranças esquecidas num quarto sem luz.
          
          E a pior parte é que o corpo aprende. Aprende a suportar o peso, o abandono, os silêncios longos demais. Aprende a dormir com a falta, a respirar entre ruínas, a fingir que ainda existe alguma coisa viva depois de tanta perda.
          
          Toda cicatriz é a prova de que a vida passou com violência por alguém.
          Não existe gente profunda sem alguma forma de destruição.
          
          No fim, viver é isso:
          um corpo cansado colecionando marcas do que amou demais, do que perdeu cedo demais, do que nunca conseguiu esquecer.