Mofo
Os gatilhos voltam sem bater na porta,
feito vento frio em janela torta,
arranham minha mente devagar,
como unhas velhas tentando entrar.
Tem cheiro de passado no travesseiro,
de memória podre no meu peito inteiro,
coisas que eu finjo já ter enterrado,
mas vivem gritando dentro do fechado.
A depressão me afunda na cama outra vez,
rouba minhas horas, meus porquês,
e eu fico parado, imóvel, vazio,
assistindo meus dias perderem o brilho.
Meu corpo afunda no colchão torto,
como se descansar fosse igual estar morto,
e aos poucos eu viro algo esquecido,
um retrato mofando, velho e perdido.
Igual queijo no fundo da geladeira,
largado no escuro a semana inteira,
ninguém percebe o cheiro mudando,
até tudo já estar apodrecendo.
As paredes do quarto parecem respirar,
e o silêncio começa a me observar,
cada sombra conhece meu nome de cor,
cada noite alimenta um novo terror.
Eu queria arrancar essas marcas da mente,
mas elas crescem quietas, frias, constantes,
feito mofo subindo por dentro da alma,
tomando o vazio onde não existe calma.
E o pior é que ninguém quase vê,
porque eu continuo tentando parecer
alguém inteiro, alguém funcional...
enquanto desmorono em silêncio total.
O mofo está se alastrando pelo meu quarto. Pela minha mente.
- JoinedJanuary 24, 2026
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