Sentada em uma sala vazia, com uma quietude que ressaltava até mesmo o som dos grilos, contemplei tamanha solidão. Subitamente, me questionei: o que ainda faço aqui?
Estava escrevendo mais uma parte de uma história qualquer, criação essencialmente minha. Mas se não há mais ninguém aqui, pensei se restara sentido. Seria então um contador de histórias apagado quando não há pessoas para ouví-lo?
Ora, é claro que não. Se és um contador de histórias, será para sempre, mesmo se apenas seu coração estiver ali para acompanhar.
Pois não conto histórias para ser ouvida. Sim, encho-me de alegria ao ver um espaço repleto de espectadores entusiasmados. Porém a falta de entusiasmo não é capaz de me parar. Ao sentir as emoções que eu trouxe à tona, ao desvendar todas essas pessoas, os mundos, tantas cores, tantas dores... meus olhos brilham, eu por si só os iluminei com essa luz que não pode ser ofuscada. E esse tom deve prevalecer, pois ainda existe a faísca que queima em meu ser, a vontade de seguir por esse caminho. A paixão pelo que eles são capazes de denominar sem extender-se pelas suas profundezas, um grande mar em um pote de água. "Escrever".
E por fim entendi que enquanto houver as palavras, haverão os contadores de histórias, sejam eles aclamados pelos aplausos de centenas de pessoas ou por seu próprio silêncio.