narrandoilusoes
Escrever sem compartilhar é como cultivar um jardim numa caverna: as flores existem, são reais, exalam perfume; mas ninguém passa para apreciá-las.
Há uma solidão muito específica em escrever e guardar. Não é a solidão comum, essa já é matéria-prima do ofício. É outra coisa: é o texto que nasce pedindo mundo e encontra gaveta.
Quem escreve vive de um paradoxo curioso... A escrita é íntima, no entanto, não foi feita para ser secreta. Desde as epopeias declamadas nas praças até os diários que viram literatura póstuma, o texto sempre sussurra: “leva-me para fora”.
Pense em Emily Dickinson. Guardou quase tudo em vida. Seus poemas respiravam em envelopes dobrados, como pássaros treinando voo dentro de caixas. Ou em Franz Kafka, que pediu queimar seus manuscritos. O amigo não obedeceu, e o mundo ganhou labirintos que ainda nos confundem.
Mas sobreviver assim, escrevendo e escondendo, exige uma espécie de “estoicismo literário”. Porque o escritor não busca apenas aplauso. Busca confirmação de que aquela pergunta que lateja dentro dele também pulsa em outros.
Ainda assim, o texto quando não circula começa a dialogar apenas com o próprio autor. Pode virar espelho infinito. Às vezes isso o aprofunda. Às vezes o aprisiona.
Compartilhar é um risco. É deixar que leiam errado. Que amem pouco. Que amem demais.
Mas não compartilhar também é um risco: o de nunca descobrir que suas palavras poderiam ter sido farol para alguém atravessando a própria noite.
Talvez a sobrevivência de quem escreve em silêncio dependa de transformar a escrita em algo que já valha por si. Um laboratório íntimo. Um território de autoconhecimento. Uma arquitetura secreta da própria mente.
narrandoilusoes
@AyllaBotan Entendo muito esse sentimento. Essa voz que diz que ainda não está pronto costuma ser a mais convincente e a mais sabotadora também. No fundo, a gente sabe que certas coisas só amadurecem quando encontram o mundo. Sobre a construção de mundo, ela nunca termina de verdade. Sempre haverá algo a ajustar. Talvez o ponto não seja estar pronto, mas estar disposto a compartilhar ao terminar a primeira reescrita. E quanto ao peso de precisar explicar cada linha… isso realmente cansa. Mas a verdade é que nenhuma obra deve explicações completas. O texto fala por si; o que cada um entende já é parte da experiência. Se for para esperar o momento perfeito, ele não vem. Mas se for para começar com medo mesmo, isso já é coragem ♡(ӦvӦ。) A ideia do Tumblr é ótima. Mas vou além: já pensou em experimentar o Substack? Você conhece? Caso não, vale a pena pesquisar. Criei uma conta lá recentemente, e também um blog no WordPress, movida por esse mesmo impulso. Tem sido uma experiência surpreendentemente divertida. ♥️
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AyllaBotan
@narrandoilusoes Mano, simplesmente me tocou no fundo do alma. Tenho muita coisa escrita que queria deixar ir, mas sempre aquele voz dizendo que não está pronto (sendo que só vai ficar quando for ao público) ou que a construção de mundo não está pronta. Receio também por questões pessoais que sempre me fazem "ter que explicar cada linha do que disse" que pesa bastante. Pensei em ser mais ativa no tumblr para compartilhar devaneios, mas ao mesmo tempo não sei se seria revelante ou suficiente? ?? Enfim, continuo na caverna selecionando e plantando minhas flores, cuidadosamente.
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