queria implodir num ímpeto. escrever como clarice. inspirar e expirar os sentimentos pra fora de mim. esquecer que sou matéria e me transmutar em palavras que parecem flutuar ao ar quando libertas de uma gaiola emocional. se eu fosse uma, queria que fosse “epifania”; constante de ser relembrada e reavisada de sua trajetória alinear, por vezes aleatória e, por isso mesmo, singular. clarice. epifania. perceber que quando me sinto sozinha, é o meu “sozinha”, e de mim isso ninguém pode tirar. e que existe uma verdade que me saúda nesses momentos: a de que eu ainda estou aqui. e implodo e implodo e implodo. em pensamento, em palavras, em suspiros, em letras impregnadas no papel em tinta vermelha. e, num ímpeto, me sentir como clarice, que me fez entender que escrever é justamente o contrário de maquiar as palavras de um jeito esteticamente bonito e engessado: é se desmanchar. é aqui, nesta ruma de palavras, que eu me desmancho, e por isso, me reconstruo e enxergo a irreal totalidade de quem sou — ou ao menos do que consigo acreditar ser — e posso testemunhar a imaterial epifania. a vida é crua e a realidade não tem filtro. se é o que de fato se é. será que é tempo de morangos?
sim.