scannibalism

Eu não sinto sua falta.
          	Sinto falta da doença que era acreditar em você.
          	
          	Você nunca esteve aqui — só existiu dentro da versão distorcida que minha mente faminta criou para sobreviver à sua ausência.
          	
          	Meu lado racional enterrou seu nome.
          	Mas o emocional ainda arranha a tampa do caixão, tentando desenterrar o que nunca viveu.
          	
          	É perturbador.
          	Sentir saudade de uma mentira.
          	Ser assombrada não por você, mas pela possibilidade do que poderia ter sido.
          	
          	Eu não perdi alguém.
          	Perdi uma obsessão.
          	Uma fantasia apodrecida que ainda pulsa, mesmo morta.
          	
          	E talvez isso seja o mais cruel:
          	você seguiu sendo real,
          	enquanto eu enlouqueci por algo que nunca existiu.

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Eu não sinto sua falta.
          Sinto falta da doença que era acreditar em você.
          
          Você nunca esteve aqui — só existiu dentro da versão distorcida que minha mente faminta criou para sobreviver à sua ausência.
          
          Meu lado racional enterrou seu nome.
          Mas o emocional ainda arranha a tampa do caixão, tentando desenterrar o que nunca viveu.
          
          É perturbador.
          Sentir saudade de uma mentira.
          Ser assombrada não por você, mas pela possibilidade do que poderia ter sido.
          
          Eu não perdi alguém.
          Perdi uma obsessão.
          Uma fantasia apodrecida que ainda pulsa, mesmo morta.
          
          E talvez isso seja o mais cruel:
          você seguiu sendo real,
          enquanto eu enlouqueci por algo que nunca existiu.

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"O que é viver a vida para você?"
          
          Isto é sobre estar vivendo a sua vida.
          E acabar por parecer ser o único problema deles.
          
          É curioso ver gente pedindo paz enquanto mantém o nome de qualquer pessoa que eles dizem desgostar circulando em roda suja, repetido por bocas vazias no meio da madrugada.
          
          Algo ainda mais estranho é que quem realmente está em paz não precisa vigiar história dos outros. Não precisa fabricar narrativa pra justificar incômodo próprio.
          
          Eles falam como se o garoto tivesse invadido alguma coisa, mas foram os próprios que transformaram o suave silêncio em um tipo de alvo. A ausência daquele ser acabou que virou assunto, virou hipótese, virou distração. Enquanto isso, o garoto segue por viver. Sem espetáculo. Sem explicação.
          
          No fim, isso nunca teve a ver com verdade.
          Teve a ver com controle.
          Com a incapacidade de aceitar que alguém simplesmente continuou, mesmo que completamente fora do enredo de todos eles.
          
          O ser que viu quem ama sofrer e sofreu por eles não está mais lá.
          Mas mesmo assim vocês ainda insistem em o carregar como se ele estivesse.
          
          E isso acaba dizendo mais sobre todos vocês do que qualquer coisa que tentaram colar no garoto.

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4 da manhã.
          O quarto continua escuro, mas eu ainda consigo ouvir alguma coisa respirando dentro de mim.
          
          Acho que enlouqueci no momento em que percebi que existem pessoas que sobrevivem sem sentir nada. Eu não consigo. Tudo em mim apodrece intensamente. O amor, o medo, a obsessão. Principalmente a obsessão.
          
          Tem algo profundamente errado na maneira como eu me apego às coisas. Eu não gosto — eu consumo. Eu não sinto saudade — eu viro infestação.
          
          Às vezes fico acordado encarando o teto até o corpo perder o peso, imaginando como seria arrancar de dentro de mim essa necessidade doentia de sentir tudo tão fundo. Como se existisse um animal preso atrás das minhas costelas, faminto, batendo contra os ossos até sangrar.
          
          Dizem que quando você ama, sente borboletas no estômago. Mentira.
          O verdadeiro amor parece sedação intravenosa. Parece febre alta. Parece morrer lentamente sem querer ser salvo.
          
          E o pior é que eu gosto disso.
          Gosto da sensação de estar me destruindo aos poucos por algo que talvez nem seja real. Gosto do desconforto. Gosto do medo. Existe uma intimidade grotesca na dor.
          
          Acho que algumas pessoas nasceram para serem humanas.
          Eu nasci para assistir minha própria mente se decompor em silêncio.
          
          — Scannibal.

scannibalism

Eu acho que existe alguma coisa morta vivendo dentro de mim.
          
          Não do tipo bonito.
          Do tipo que respira devagar, observa em silêncio e espera o momento certo para afundar os dentes.
          
          O amor nunca me deixou leve.
          Ele me deixa exausto. Febril. Paranoico.
          Como se cada toque arrancasse pedaços da minha pele sem ninguém perceber.
          
          Às vezes sinto meu corpo inteiro implorando para desaparecer, mas minha mente continua acordada às 5 da manhã, repetindo nomes, memórias e obsessões como uma oração doentia.
          
          Eu não tenho medo de perder alguém.
          Tenho medo do que sobra de mim quando alguém entra fundo demais.
          
          Existe um cisne negro nadando dentro do meu peito.
          Bonito à distância.
          Podre por dentro.
          
          E quanto mais eu amo, mais silenciosamente violento eu me torno.

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Eu acho que existe alguma coisa morta vivendo dentro de mim.
          
          Não do tipo bonito.
          Do tipo que respira devagar, observa em silêncio e espera o momento certo para afundar os dentes.
          
          O amor nunca me deixou leve.
          Ele me deixa exausto. Febril. Paranoico.
          Como se cada toque arrancasse pedaços da minha pele sem ninguém perceber.
          
          Às vezes sinto meu corpo inteiro implorando para desaparecer, mas minha mente continua acordada às 5 da manhã, repetindo nomes, memórias e obsessões como uma oração doentia.
          
          Eu não tenho medo de perder alguém.
          Tenho medo do que sobra de mim quando alguém entra fundo demais.
          
          Existe um cisne negro nadando dentro do meu peito.
          Bonito à distância.
          Podre por dentro.
          
          E quanto mais eu amo, mais silenciosamente violento eu me torno.

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Oi. Pode me chamar de Scannibal.
          Emrys é só o nome que sobrou quando ninguém estava olhando.
          
          Eu nunca aprendi a me apresentar como alguém normal. Sempre pareceu encenação barata — leve, previsível, quase ofensiva.
          
          Existe algo errado na forma como eu sinto o mundo. Não é intensidade… é ruído. Constante. Inquieto. Como se tudo tivesse uma segunda camada que ninguém mais percebe, e eu não conseguisse desligar disso.
          
          O medo não me assusta. Ele reconhece meu nome primeiro.
          A dor não é acidente — é companhia recorrente, íntima demais para ser ignorada.
          E o veneno… o veneno não mata rápido. Ele convence. Ele permanece.
          
          Eu nunca entendi essa ideia de borboletas no estômago. Isso parece limpo demais para algo como amor.
          O que eu conheço é mais pesado. Mais invasivo. Amor não flutua — ele ocupa. Ele corrói espaço, reorganiza pensamentos, altera silêncio.
          
          E quando passa, não sobra poesia.
          Sobra vigilância.
          Sobra obsessão quieta.
          Sobra um tipo de vazio que ainda reage ao nome de alguém.
          
          Amar, pra mim, nunca pareceu sobre calor.
          Sempre pareceu sobre perder controle de si mesmo sem ninguém perceber.

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Pasárgada (s.f.)
          
          não é um lugar. é um mecanismo de fuga que aprendeu a fingir ser destino.
          
          é onde a distância não precisa mais procurar ninguém — porque tudo já foi perdido antes mesmo de ser nomeado. é para onde eu vou quando não aguento mais ser visto de dentro. não me procurem por lá; não porque eu queira paz, mas porque eu não deixo rastros quando desisto de existir.
          
          “lá sou amigo do rei” — mas isso nunca foi sobre poder. é sobre delírio de controle, sobre a ilusão de que ainda existe alguém no comando quando tudo já desabou por dentro.
          
          eu durmo onde e por quanto tempo eu quiser, porque o tempo deixou de ser linear e virou só repetição de pensamento. resquícios da antiga Pérsia? não. resquícios de mim mesmo, se decompondo com elegância.
          
          é um lugar onde os laços não se criam — eles se confundem, se contaminam, se mordem por dentro até virarem algo irreconhecível. tudo que toca ali volta diferente, como se tivesse sido pensado por outra mente… ou pela mesma mente em colapso.
          
          é onde eu tomo banho de silêncio e vinho como quem tenta anestesiar o próprio nome. e então me deito — não em descanso, mas em rendição.
          
          Pasárgada é a capital do desconhecido.
          mas o mais assustador não é o lugar.
          
          é perceber que ninguém se conhece de verdade…
          e mesmo assim continua vivendo como se isso não fosse uma forma lenta de delírio.

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nefelibata (s.m. e s.f.)
          
          é quem desobedece o racional até ele começar a parecer opcional. alguém que vive nas nuvens, mas não por leveza — por fuga. cabeça e pés no mesmo lugar impossível, como se a realidade não tivesse permissão de encostar.
          
          é um andarilho da própria mente, caminhando por pensamentos que ninguém mais deveria ouvir. não segue regras, estatísticas ou qualquer coisa que tente medir o que há por dentro. rejeita o concreto como quem rejeita uma ameaça.
          
          é quem não foge da realidade — distorce ela até ela obedecer. cria mundos como quem desenvolve obsessões: com calma, repetição e uma estranha necessidade de controle.
          
          é rei e ruína da própria cidade mental. constrói e destrói os mesmos lugares até não sobrar certeza nenhuma do que foi sonho ou delírio.
          
          é quem envelhece por dentro, mas continua vendo estrelas que não deveriam estar lá. não como esperança — como insistência.
          
          é quem não desiste de sonhar.
          
          e talvez seja isso o mais perigoso: não desistir nunca começa a parecer mais com doença do que com fé.

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âmago (s.m.)
          
          é o lugar onde você não mente nem quando tenta. o núcleo onde até a identidade perde o controle e sobra só instinto cru, repetição de pensamentos quebrados e uma calma que assusta mais do que o caos.
          
          é a parte que observa você viver como se estivesse do outro lado do vidro. que memoriza detalhes sem pedir permissão. que insiste em pessoas, cheiros, ideias — mesmo quando tudo já deveria ter ido embora.
          
          é o que sobra quando a máscara não cai… ela dissolve. lentamente. sem alívio.
          
          é a sua versão mais silenciosa e mais invasiva ao mesmo tempo. aquela que sussurra seu nome por dentro da cabeça quando tudo fica quieto demais.
          
          olhe no espelho.
          não para se reconhecer —
          mas para perceber que algo em você já está te olhando há mais tempo.

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oblívio (s.m.)
          
          é quando o pensamento não te solta, mesmo depois de tudo ter acabado.
          é repetir um nome dentro da cabeça até ele perder o sentido — e ainda assim continuar.
          
          é procurar alguém em lugares que nunca existiram.
          é insistir no vazio como se ele fosse resposta.
          
          é um coração que não abandona ninguém — só fica preso.
          batendo em círculos dentro de uma mente que já não distingue lembrança de delírio.
          
          é saudade que não aponta para o passado, mas para um estado de perseguição contínua.
          como se existir fosse estar sendo observado por algo que você não consegue ver, mas sente.
          
          é a falta que cresce.
          não a ausência — mas a presença do que nunca deveria ter ficado.
          
          é brindar sozinho num bar e perceber que o copo devolve o seu olhar.
          como se até o reflexo estivesse cansado de você.
          
          é quando o corpo continua, mas a mente já começou a se repetir.
          e cada repetição soa como alguém chamando seu nome dentro de um lugar fechado.
          
          oblívio não é esquecer.
          é ser lembrado demais por algo que não quer te deixar em paz.