80 10 0
                                        


Majú♥️



Acordo com o celular berrando ao meu lado. A tela acesa mostra “Clay”.
— Ah, puta merda… — resmungo, pulando da cama como se tivesse fogo no colchão. Óbvio que não atendo. Ele sabe que eu sempre me atraso, todo mundo sabe. Mas insistir logo de manhã? Sério?

Escapo do quarto e entro correndo no banheiro do corredor. Banho rápido, segunda chuveirada do dia — mania de gente ansiosa. Saio sem toalha mesmo, porque o quarto fica a dois passos dali e meu pai não está em casa.

— Abre logo, eu tô pelada! — bato na porta quase aos berros. — Fláviaaaa! Anda!

Ela abre rindo, e eu me enfio no quarto, enrolando a toalha em volta do corpo.

— Você é louca — ela diz, ainda rindo, e se joga de volta na cama como se nada tivesse acontecido.

— Vai acordar a Cínthia, sua insana. — começo a fuçar na mala em busca de roupa.

— Ué, se você me acordou, por que eu não posso acordar ela? — retruca, com aquele tom de quem sempre quer ganhar a briga.

— Porque você é boazinha, né? — passo hidratante nas pernas, tentando manter a calma.

Ela põe o dedo no queixo, fazendo pose.
— Gostei. Sou boazinha. — olha para Cínthia com cara de santa. — Viu? Nem vou acordar você.

— Tarde demais, senhorita boazinha — Cínthia abre um olho, voz rouca, e boceja. — Você já me acordou.

— Mentira sua.

— Acordou sim.

— Chega! — corto, pegando minha carteira. — Eu vou sair. Vocês, façam os preparativos pra festa.

— Ainnn, vai voltar tarde? — Cínthia pergunta com olhar safado.

— Pode deixar, chefe — Flávia imita um traficante de filme ruim.

Reviro os olhos. — Não quebrem nada, pelo amor de Deus.

Saio. Minha mãe também não está em casa, só volta de noite com meu pai. Melhor. Menos plateia.

No táxi, decido ligar pro Clayton. Ele atende seco:
— Por que não atendeu antes?

— Desculpa… tô pegando táxi agora. — faço sinal e entro.

— Tá. Mas não vem pra minha casa.

— Então onde?

— No jardim. Aquele.

— Ok. Até lá.

Ele desliga sem mais. O coração aperta, mas engulo.

O jardim

O táxi para, pago o motorista e olho pros lados. Lá está ele, sentado no banco, uma sacola preta ao lado. Acena sem emoção.

— Oi — sorrio pequeno, quase sem mostrar os dentes.

— Oi — ele responde seco, nem me encara.

Sento ao lado. — Então…

— Valeu por ter vindo. Eu sei que a gente terminou e…

— Você terminou — corto.

— É. — dá de ombros. — Só quero entregar isso.

Olho a sacola. — O que é?

— Os presentes que você me deu. Tô devolvendo.

Demoro uns segundos pra processar. — Você não tá fazendo isso. Eu dei pra você. São seus.

— Eu posso, e tô fazendo. — A voz é dura.

— Clayton, isso é infantil.

— Que seja, Majú. — empurra a sacola no meu colo. — Toma.

O nó na garganta estoura. Pego sem discutir mais. — Se é assim que você prefere, assim será.

Levanto e vou embora. Uma lágrima escapa, depois outra, até virar um rio idiota no caminho de volta.

A festa de pijama

Chego em casa mais calma, mas com o peito pesado. Subo pro quarto e encontro as meninas no meio dos preparativos.

— Oi — sorrio fraco.

— Oiii, amiga! — respondem em coro.

— Como foi? — Cínthia já se joga na fofoca. — Voltaram? Ele pediu desculpas? Conta!

— Tá na cara que voltaram, né? — Flávia revirou os olhos. — Até presente rolou.

— Nada disso. — desabo no puff. — Ele só me chamou pra devolver tudo o que eu dei.

O choque delas é quase cômico.
— Ele fez ISSO? — Flávia parece em transe.
— Que criança ridícula. — Cínthia completa.

Respiro fundo. — Sabe de uma coisa? Eu tô cansada de chorar. Hoje eu quero comer, beber, dançar, gritar de alegria… aproveitar minhas amigas!

Me jogo nelas e caímos juntas no tapete, rindo.

— Você é louca mesmo — Cínthia fala.
— Então vamos terminar de preparar tudo! — Flávia já anima.

A noite cai. Tomamos banho, colocamos pijamas. Elas zombam porque é o meu terceiro banho do dia.

— Você tá se achando loiça, Majú — ri Cínthia.
— Concordo — suspiro. — Tô parecendo prato de restaurante, lavado o tempo todo.

Mais gargalhadas. Depois música alta, decoração rosa espalhada pelo quarto, travesseiros voando. Elas comem tudo que acham, transformam meu quarto num chiqueiro adorável. Eu só observo, deixando a cena gravada na memória. Era a nossa despedida não oficial.

A manhã seguinte

Acordo com o sol cortando meu rosto. Estamos jogadas em posições aleatórias pelo quarto, uma bagunça humana. São 8h30. Levanto ainda zonza, mas sem sono. O dia será curto: hoje entregamos a casa, e ainda restam malas.

Desço, preparo café, como sozinha. Meu pai aparece.
— Bom dia, filha. — beija minha cabeça.

— Bom dia, pai. Dormiu bem?

Ele senta. — Sim. E você?

— Também.

— Tem certeza? — me encara.

Eu desvio. — Aham.

Logo as meninas descem, cheirinho de café espalhado, cumprimentam meu pai. Minha mãe também chega. Conversamos, rimos, fingimos normalidade. Até que os futuros donos batem à porta.

Meu pai os recebe com aquele sorriso educado. Eu, com cara de antipatia disfarçada. A casa já não é nossa, e isso dói.

Decido sair com as crianças, Mayura e João Pedro, pro jardim. Conversamos, brinco, faço um pacto de mindinho com a menina: ela promete cuidar bem do quarto que foi meu. Abraçamo-nos. Parte do meu coração fica ali.

Quando voltamos, meu pai entrega as chaves.
“Às 11h já não estaremos mais aqui”, ele diz.
E eu sinto meu mundo desmoronar em silêncio.

Um sonho realOnde histórias criam vida. Descubra agora