Levi POV
Saí da porta da instituição em passos rápidos, o corpo tenso como se cada músculo soubesse que precisava fugir antes que algo acontecesse. Vi Mikasa afastar-se ao lado do rapaz de olhos verdes; a imagem deles se movendo juntos ficou gravada como uma cena que eu não conseguia apagar. Pareciam próximos, como se compartilhassem uma história antiga. Por alguns segundos imaginei o que ele significava para ela — amigo, confidente, talvez algo mais. A possibilidade me cortou por dentro.
Afastei os pensamentos com violência quando o estômago roncou, lembrando-me de que precisava voltar para casa. Caminhei sem pensar, os passos ecoando na calçada molhada de uma chuva que havia passado há pouco; o ar tinha cheiro de asfalto quente e lixo úmido, e isso me deixou ainda mais consciente do próprio corpo. Parei num supermercado por impulso, mais para ocupar a mente do que por fome. As luzes fluorescentes queimavam a retina; o som das embalagens sendo empilhadas parecia um metrônomo que marcava o tempo até eu perder o controle.
Comprei o mínimo: pão, queijo, café solúvel. Voltei a caminhar com sacolas que balançavam, sentindo o peso delas como se fossem âncoras. Ao chegar ao apartamento, a porta rangeu com um som seco que sempre me lembrava de estar sozinho. Peguei um pedaço de pão e deixei o sabor simples preencher a boca; por um instante o gosto era âncora, distração. O arrepio que percorria minha espinha não cedia.
Peguei o celular para tentar mudar o foco. A tela iluminou meu rosto pálido; mensagens de Kuchel apareceram em sequência.
Kuchel: Levi, soube que você está indo bem nos seus estudos, espero que seja verdade. Caso você tenha mudado de ideia e queira ser uma pessoa normal, marquei uma consulta com uma renomada psicóloga pra você. Avisei que pode ser difícil de lidar.
Fiquei olhando a mensagem como se ela fosse um objeto estranho. Queria repetir para mim mesmo que estava no controle, que nada daquilo me afetava. Respondi com ironia contida: Claro, gaste seu dinheiro como quiser... eu estou sob controle... Ela respondeu com o costumeiro tom maternal: Eu só quero seu bem, filho... Minha última mensagem foi seca, quase um corte: Me afastando de você, pra que seu precioso nome não seja corrompido. Muito obrigada!
Mudei de rede social para evitar pensar demais. No Facebook, o feed era mais informativo do que social — notícias, investigações, casos jurídicos. Conhecia leis porque as estudara até decorá-las; conhecia também as reações humanas, porque as observava desde criança: o tremor das mãos quando alguém é pego, o olhar que se fecha quando a mentira é descoberta, o silêncio que se instala antes do grito. Essas observações eram mapas que eu seguia.
Ao rolar a tela, uma foto chamou minha atenção. Mikasa sorria ao lado do rapaz de olhos esmeralda. A imagem me atingiu como um choque elétrico. O calor subiu pelo meu corpo, o coração acelerou; a foto era uma prova, um fragmento que eu precisava decifrar. Em foto, ele perdia parte da intensidade que vira ao vivo, mas continuava perigoso — o sorriso, os traços, o olhar que me atravessara.
Procurei por marcações. Mikasa não o havia identificado. Entrei nas curtidas; o nome dele não aparecia. Duas possibilidades se formaram rápido: ou a relação era mais unilateral do que parecia, ou ele ainda não usava redes sociais. Vasculhei a lista de amigos dela, rosto por rosto, até que encontrei.
Meu peito apertou. O nome era tão bonito quanto os olhos que o acompanhavam. Não podia — e não queria — me expor, mas precisava saber.
Eren Jaeger.
A palavra reverberou na minha cabeça como um sino. O mundo ao redor ficou mais nítido e, ao mesmo tempo, distante. A respiração ficou curta; senti as palmas das mãos suadas. Havia algo na sonoridade daquele nome que me puxava, como se fosse uma chave que abrisse uma porta que eu não sabia que existia.
Flashback
Houve um tempo em que a ideia de alguém se importar comigo parecia plausível. Petra Ral era essa pessoa — sempre por perto na escola, sempre sorrindo. Eu não sabia o que significavam aqueles sorrisos e, por muito tempo, não me importei. Minhas emoções se resumiam a satisfação e desconforto; o resto era ruído.
Petra me seguia até em casa. Talvez por causa dela eu tivesse aprendido a perseguir o que queria. Ela contava tudo, ria com facilidade, e meu subconsciente, em resposta, sussurrava: faça-a chorar; cale-a.
Numa tarde, ela me abraçou de repente, rompendo a distância que eu mantinha. O contato físico me enojou — a incerteza sobre se estava limpa, o calor alheio, a invasão. A raiva subiu como um líquido quente. Peguei a tesoura que estava sobre a mesa sem pensar. Empurrei-a; ela tropeçou e caiu. A mão que segurava meu braço não foi suficiente para deter o impulso. Cortei parte do cabelo dela e apontei a tesoura para o rosto. O olhar dela, mistura de tristeza e pavor, me trouxe uma estranha satisfação. Fingir arrependimento foi difícil; eu não sentia remorso.
O êxtase foi interrompido por um tapa quando cheguei em casa. Os olhos de Kuchel ardiam com algo que eu não decifrava.
— VOCÊ É UM ESTÚPIDO, MOLEQUE IDIOTA! — ela berrava, a voz cortando a casa. — VOCÊ NÃO TEM NOÇÃO DAS MERDAS QUE FAZ. EU TIVE QUE PAGAR CEM MIL DÓLARES PARA AQUELA MULHER NÃO PRESTAR QUEIXA CONTRA VOCÊ.
Gravei cada palavra como se fossem instruções. Quando esbocei um sorriso ao lembrar do rosto de Petra no chão, Kuchel não hesitou.
— Você é um moleque doentil... SUA CRIANÇA IMPRESTÁVEL.
O soco no meu nariz trouxe um zumbido. O grito de Mikasa ecoou ao fundo. Senti o sangue na camisa e, depois, o mundo escureceu. Horas depois acordei num ônibus a caminho do internato militar em Rose. O balanço do veículo, o cheiro de borracha e diesel, o som abafado das rodas na estrada — tudo isso se misturou a uma sensação de deslocamento que nunca mais me abandonou.
Flashback off
Voltei ao presente sacudindo a cabeça, tentando expulsar o gosto metálico da memória. A foto de Mikasa e Eren continuava na tela, como se me desafiassse a não olhar. O calor no peito não diminuía; pelo contrário, crescia, transformando-se numa necessidade que eu não sabia nomear. A obsessão se formava silenciosa, como uma sombra que se estende antes da noite.
Levantei-me e caminhei pela sala vazia. O apartamento cheirava a café frio e papel; as paredes, brancas demais, refletiam a luz em ângulos que me deixavam tonto. Toquei a borda da mesa, senti a madeira áspera sob os dedos, e a textura me ancorou por um segundo. Pensei em estratégias: descobrir onde Eren estudava, quem eram seus amigos, se tinha rotina previsível. Cada detalhe poderia ser uma entrada, uma fresta pela qual eu poderia espiar.
A noite caiu pesada. As luzes da rua filtravam-se pela persiana, riscando o chão com linhas que pareciam grades. A cidade de Sina continuava indiferente, mas para mim tudo mudara. O nome Eren Jaeger repetia-se como um mantra. Fechei os olhos e imaginei o rosto dele em detalhes: a curva do lábio, a sombra sob o queixo, o brilho verde que me atravessara. A imagem era ao mesmo tempo doce e cortante.
Abri novamente o perfil de Mikasa e percorri as fotos com dedos trêmulos. Queria mais pistas, qualquer coisa que me desse vantagem. Vi comentários, risos, nomes que eu não conhecia. Cada interação era um mapa que eu precisava decifrar. A sensação de estar sendo excluído, de não fazer parte daquele círculo, queimava como ácido.
Quando a madrugada avançou, a fome voltou, mas já não era apenas fome física. Era fome de saber, de possuir, de entender o que aquele garoto representava na vida de Mikasa — e, por extensão, na minha. A obsessão que me definira em outras formas agora tomava um novo rosto. Não era apenas desejo; era uma necessidade de controle, de encaixar aquela peça no meu tabuleiro.
Deitei-me
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Obsessão - (Em Revisão)
Fanfiction(ERERI X RIREN) Levi Ackerman um homem sociopata de 25 anos, observava os alunos do colégio de Sina todos os dias desde seus 22, sempre atento a costumes, horários e trejeitos de cada um dos alunos, em especial um rapaz moreno de olhos esmeraldas...
