Capítulo 3 - A adolescência e o início da tentativa de compreensão

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      Esses dias deu-lhe na telha de aprender alemão, talvez por incentivo de seu namorado ou talvez por um incentivo antigo revivido de seu primo, que havia decidido junto com ele aprender o idioma para poder falar besteiras sem que as pessoas soubessem do que se tratava. Portanto, baixou aplicativos de aprendizado de idiomas, assistiu vários vídeos na internet e encontrou nas redes sociais pessoas de outros países para conversar. Descobriu que um dos amigos de seu namorado também aprendia alemão sozinho.

       — Fiquei sabendo que o senhor está aprendendo alemão... passarinho me contou.

       — Uhum — ri um pouco — Bem básico ainda, ele (o passarinho, no caso o namorado) te passou o aplicativo?

       — Ah eu também estou no básico, mas caminhando, mas acho que ele não passou, qual seria?

       Ele conta qual é o aplicativo e explica mais ou menos do que se trata, abrindo uma conversa sobre métodos de aprendizado que fazem sentido para cada um e os recursos básicos e gratuitos para alcançar o objetivo de aprendizado. Nem sempre foi fácil para ele dar continuidade a um assunto ou a uma conversa, já que há pouco tempo aprendeu a se comunicar.

       Criou o hábito de comer sanduíche em uma sorveteria perto de sua casa. A primeira vez que esteve lá, foi por indicação de seu pai, que o chamou para tomar sorvete, e de vez em quando ele acaba indo junto a ele tomar sorvete lá. Essa, para ele, é uma forma de poder sair de casa e socializar um pouco com as moças que lá trabalham. Por mais que eles não trocassem muitas palavras, ele saía de lá mais feliz do que havia chegado. Mas, para sua infelicidade, ele foi mais uma vez tomar sorvete com seu pai, e, na volta, o pai comentou algo com ele.

       — Eu vim aqui esses dias e elas falaram de você.

       — Sério? Deve ser porque venho muitas vezes lanchar.

       — Uma delas me disse que você é muito tímido.

       Seu passo ficou um pouco mais lento, seus olhos perderam o foco e ele se estremeceu em chateação. O pai não tinha percebido seu estado, mas se tivesse, provavelmente não entenderia o porque de tamanha angústia por um motivo tão bobo.

       Não era a primeira vez que ouvia isso sobre si, nem a segunda e nem a trigésima oitava, porque a comunicação sempre foi um empecilho em sua vida, por mais que ele acredite ter melhorado muito nesse quesito nos últimos anos. Quando ele entrou na adolescência com uns 13 ou 14 anos, ele decidiu que iria se esforçar ao máximo para desenvolver relações com pessoas e fazer amizades. Frequentava a escola e um curso de inglês, mas não saía de casa para mais nada. Nunca havia saído de casa por conta própria para fazer algo que queria ou para encontrar alguém que conhecia, não é atoa que o seu senso de localização era e é até hoje muito ruim.

       A rotina na escola, após a aquisição do isolamento completo, passou a ser um inferno. Frequentar aquele lugar era uma tarefa dolorosa e ele esperava sempre por um dia em que tudo fosse mudar, em que ele chegaria lá e seria diferente. Era uma situação muito difícil de suportar, mas isso acontecia por dois motivos: porque ele não tinha amigos, nem colegas e nem mesmo conhecidos e porque ele começou a ter distorções de comportamento de acordo com a sua sensibilidade sensorial. O primeiro é óbvio, ele passou sua vida toda expulsando as pessoas e não é atoa que se isolou completamente. Quem já passou por isso sabe como é, não conseguir falar com as pessoas fica mais difícil simplesmente porque elas já não ouvem mais as tentativas, elas estão tão acostumadas com o silêncio que já nem dão mais atenção a se quer uma palavra. Ele tentava todos os dias criar coragem para falar com qualquer um que fosse, mas quando falava ou não era ouvido, ou não saía voz, ou ele dizia coisas que não faziam sentido, impulsionadas pela mudança de comportamento. Mas no final das contas nunca conseguia e voltava a estaca zero.

Sentidos meus, seus e de todo o mundo.Onde histórias criam vida. Descubra agora