Capítulo 4 - A transformação ou o novo nascimento

18 1 3
                                    

      O vento, em sua alta velocidade, bate contra as árvores, emitindo sons ambientes, quase que imperceptíveis ao ouvido descuidado. Para ele, não ouvir estes sons é uma dádiva, pois isso significa que seus sentidos não estão tão aguçados, e que ele está bem consigo mesmo. Os pássaros dão pequenos saltos e movem suas cabeças de forma repentina, seguindo sua rotina que para ele não faria muito sentido, caso estivesse prestando atenção. Sua atenção está voltada para uma música que se repete ao tocar dentro de sua mente, com uma letra poética e com ritmo e harmonia que lhe lembram um samba. Ele está sentado sobre um banco baixo e largo no meio da praça que fica perto de sua casa. Passa os dedos sobre seus cabelos e sente o quão longos eles estão, isso o espanta, pois sabe que cortou o cabelo há anos e isso não é possível. Seus olhos se abrem, sua pele está suada e ele acorda transtornado mais uma vez. Esse tipo de sonho, no qual ele revive o tempo em que seu cabelo era longo, o persegue.

       Alguns anos atrás, depois de muito tempo implorando para ele, depois de ele não permitir e bater o martelo sobre isso, seu pai permitiu que ele cortasse o cabelo. Depois de anos fazendo tratamento químico, ele poderia finalmente fazer a transição capilar e deixá-los curtos, como sempre quis. Esse foi um grande passo em sua jornada para alcançar a si mesmo e a sua verdadeira personalidade.

       Além disso, outras transformações vieram. Ele se mudou de apartamento e de escola, coisa que supostamente o faria bem, considerando que frequentar a sua antiga escola era quase que uma agressão contra si mesmo. Nessa nova escola, durante seu último ano letivo, ele conseguiu que se referissem a ele no masculino e pelo seu novo nome: Bruno. Mais do que isso, ele pôde se vestir como queria e a partir daí estava livre para ser quem era. Nesse novo ambiente ele conheceu algumas pessoas e fez amizade com outras, tinha contato com o pessoal da coordenação e com os professores, os quais o ajudavam e o davam apoio para o que fosse. Não poderia estar mais feliz. No começo foi um pouco difícil para ele se soltar completamente, pois ele acabara de sair de um estado de isolamento completo, mas com o tempo foi ficando mais maleável e aos poucos estava dançando de felicidade.

       Algumas pessoas específicas deixaram sua marca na vida dele e ele as guarda até hoje dentro de seu coração. Uma delas foi sua professora de artes visuais que conversava com ele durante o tempo de monitoria, já que nenhum aluno realmente se interessava em tirar dúvidas nesse horário. Eles conversavam sobre a vida, sobre viagens e sobre suas ambições. A dona Abadia era uma mulher mais velha e, portanto, havia viajado para vários lugares e conhecido muitas pessoas, tinha muita bagagem para compartilhar, e ele adorava ouvir.

 A dona Abadia era uma mulher mais velha e, portanto, havia viajado para vários lugares e conhecido muitas pessoas, tinha muita bagagem para compartilhar, e ele adorava ouvir

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

       Essa outra pessoa que marcou sua vida foi um colega de sala, uma pessoa não-binárie, que estudou com ele durante aquele tempo. Ele era um anjo de pessoa, se importava bastante com o bem-estar de todo mundo e principalmente com o que as pessoas ao seu redor estavam sentindo. Isso, para ele, era algo muito diferente, nunca havia conhecido alguém que mostrasse se importar tanto, mas agora que conheceu estava maravilhado. Eles se aproximaram bastante em muito pouco tempo, brigaram e pararam de se falar por um tempo, mas a experiência não deixa de ter sido incrível e de ter mudado sua vida. Eram pessoas muito parecidas e isso tornou o elo mais forte ainda. Conversavam bastante sobre sentimento e sobre suas angústias, um estava lá para o outro durante as crises que eles costumavam ter. Teve um dia específico em que ele estava bastante mal, estava passando por uma de suas crises de personalidade e então ele ligou para seu amigo. Ele não tinha muito a dizer então se sentiu culpado por ter ligado, mas queria ao menos poder ouvir alguém falar para se sentir melhor. Assim o fez, o amigo dele, passou horas de ligação contando-lhe histórias de vida aleatórias para que ele se sentisse melhor. Esse foi um dia memorável para ele, e ele jamais esquecerá, assim como jamais esquecerá toda a experiência que foi estar junto a ele.

       Tudo estava muito lindo, mas não quer dizer que ele estava isento de suas crises. É justo dizer que elas diminuíram de frequência e estavam cada vez mais escassas, mas ainda estavam tão fortes quanto antes. Ele começou a frequentar um psiquiatra, que o receitou um remédio de uso diário e contínuo, mas que não tem nada a ver com as suas crises, é apenas um antidepressivo.

       Hoje em dia Bruno já definiu o que ele é: um menino trans e bissexual de 18 anos, que tem um humor peculiar e uma grande atração por conversas profundas sobre a vida, sobre sentimentos e sobre personalidades e por aleatoriedades, é extremamente desorganizado e preguiçoso, se interessa pelos sentimentos e histórias alheios e se preocupa muito com isso nas pessoas. Definiu também o que ele gosta: de jogos de interpretação de personagens e aprofundamento de sentimentos, como RPG de mesa e outros, de criações cinematográficas de mistério e ficção científica, de desenhar e de apreciar os desenhos e arte alheios. E por último definiu o que ele quer para o futuro: que as pessoas se importem mais com o campo emocional e psicológico do mundo.

      Além de toda essa definição de si, ele se considera algo que se pode chamar de Pessoa Altamente Sensível (PAS) ou do inglês "Highly Sensitive Person" (HSP). Isso quer dizer que o indivíduo é mais delicado e sensível que as outras pessoas, levando-o a se apegar aos detalhes e saber lidar com os sentimentos seus e dos outros.

Sentidos meus, seus e de todo o mundo.Onde histórias criam vida. Descubra agora