Desde muito cedo eu soube que esse era um mundo cruel, mas, ainda assim, nunca deixei de desejar encontrar um lugar nele. O medo de que no fim a vida seja apenas isso, dar o sangue pelas razões dos outros para sobreviver e não ter nada do que se orgulhar quando olhar para trás, me perturba toda vez que sinto que estou perto de fazer essa reflexão pela última vez. Por isso, a conversa agitada dos soldados no convés me deixa inquieta. A demora de contato vindo do navio da vanguarda da frota significa que algo está fora do esperado, seja grave ou não.
Tento passar a limpo para o relatório de viagem as anotações que fiz ao longo do dia, mas quando leio as palavras que eu mesma escrevi, elas parecem desprovidas de sentido. A ansiedade da área externa se esgueirou até meu cubículo e se transformou na minha própria. Só consigo prestar atenção em meus batimentos sincronizados com o tique dos ponteiros do relógio, cada um parecendo que será o último antes de algo desastroso acontecer.
Largo a pasta bege cheia de papéis e apago no cinzeiro o cigarro que tenho entre os dedos. Fecho os olhos e me esforço para ouvir apenas o som das ondas batendo contra a carcaça de metal da embarcação. De repente, todo o barulho do lado de fora cessa. Demoro um segundo para perceber que aquela era a calmaria antes da tempestade.
Subitamente, como se o navio alçasse voo, a gravidade me leva contra a parede da sala. Meu corpo dói, e preciso de alguns instantes para processar que não estamos mais sobre a água. A adrenalina me dá o impulso de deixar o pequeno cômodo para ver o que acontece do lado de fora. Consigo me manter em pé por um breve momento e me apresso em direção à pesada porta de ferro, esforçando-me para empurrá-la sem que ela voltasse e me decepasse algum membro. O navio treme, e o som da água a ser rasgada misturado aos gritos espantandos dos homens me atordoam.
Quando a porta finalmente se abre e posso sair no convés, sinto meu coração cair em queda livre até os meus pés. Um enorme titã tem o navio sobre um de seus ombros, nos carregando para mais perto da costa da ilha. O rosto do gigante está a pouquíssimos metros da pequena sala. Logo assim que coloquei os pés para fora, me deparei com seus olhos verdes vívidos, se destacando no breu da noite. Ele me encarou por um segundo, então voltou a atenção para o trajeto que fazia. Nesse momento, tive a certeza de que era ele. Eren Yeager, o Titã Fundador.
A maioria dos soldados estão caídos no chão, sem equilíbrio por conta da inclinação e trepidações do navio. Meu corpo não obedece aos meus comandos e permaneço apoiada na porta, paralisada, sem conseguir desviar os olhos da figura gigantesca e de seus movimentos desmedidos. Chega a ser cômico como em um instante tudo pode acabar. Um arremesso e todas as dúvidas deixam de existir.
Depois de segundos que pareceram inacabáveis, a movimentação agressiva cessa por um breve momento. Então, o titã tira a embarcação de seu ombro e a despeja sobre as pedras da costa. Como todos os outros, sou derrubada pela inércia, batendo as costas com força contra o chão de madeira. Faço uma careta ao sentir a dor aguda subir queimando por minha espinha.
Levanto-me o mais rápido possível. Eren Yeager continua a nos observar de cima, de uma distância tão grande que se torna impossível enxergar qualquer traço de sua face, a não ser por seus olhos brilhantes.
— Amigos de Marley! — uma voz estridente cortou o silêncio que todos estavam com medo de quebrar. — Sejam bem-vindos à ilha de Paradis.
Todos os pescoços se viraram em direção à fonte de palavras. Elas vêm de uma mulher de óculos e tapa-olho no alto de uma rocha, de linguagem corporal maníaca. A alguns metros dela, vejo um marleyano com as mãos para trás, certamente atadas, e um rapaz baixo de cabelos escuros em seu cangote. O loiro esboça uma expressão tensa, e percebo que treme como um animal assustado, parecendo a um susto de ganir. Ele veste o uniforme dos cozinheiros que vieram na expedição, e apesar de não saber seu nome, tenho a certeza de tê-lo visto antes.
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𝐁𝐄𝐘𝐎𝐍𝐃 𝐓𝐇𝐄 𝐎𝐂𝐄𝐀𝐍, 𝘫𝘦𝘢𝘯 𝘬𝘪𝘳𝘴𝘵𝘦𝘪𝘯
Fanfiction⠀⠀⠀⠀━━ 𝗔𝗟𝗘𝗠 𝗗𝗢 𝗢𝗖𝗘𝗔𝗡𝗢. ⠀⠀⠀⠀Eris Welch cresceu separada pela extensão de água salgada da realidade da ilha de muralhas repressivas, mas próxima em essência. Em toda sua existência, Eris nunca pôde definir as coordenadas de seu pr...