Capítulo 20

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Em se tratando de punições, denitivamente poderia ter sido pior. Quer dizer, não sei se eles poderiam ter nos colocado em instrumentos de tortura ou algo do tipo – eu, talvez, mas, denitivamente, não Lauren –, mas quem sabe que tipo de coisas esquisitas eles podem inventar de fazer aqui nas Terras Altas? Poderíamos ser forçadas a cuidar de ovelhas, carregar rochas pesadas ou algo assim. Tá bom, a ideia das rochas pode não ser tão ruim para mim, mas ainda assim. Então, sim, cuidar da lavanderia parece ser um preço pequeno a se pagar por tudo que aconteceu durante o Desafio. Lauren não concorda.

— Isso é selvagem — ela diz, seu nariz perfeito se contorcendo enquanto seus braços estão carregados de lençóis molhados retirados da máquina. — Praticamente medieval.

A lavanderia se encontra no que eu imagino que tenha sido o porão ou talvez o local onde eles mantinham as mulheres insolentes naquele tempo, o chão de pedras desniveladas, e a luz entrando pelas janelas antigas é embaçada e cinza. Está chovendo. Que novidade.

— História é minha segunda disciplina favorita — digo enquanto coloco um copo de sabão de cheiro forte na outra máquina de lavar. — E tenho quase certeza de que não me lembro da existência de máquinas de lavar modernas no período medieval, mas acho que posso estar errada, né?

Lauren me fuzila com o olhar em resposta. Seu cabelo está arrumado num rabo de cavalo, mas alguns fios escaparam e ficam encaracolados sobre seu rosto, na umidade da lavanderia. Pequenas gotas de suor pontuam sua testa também, mas me impressiona que até mesmo aqui embaixo, no porão, fazendo trabalho braçal, não tem como confundir Lauren com ninguém que não seja uma princesa.

— Ninguém gosta de sabichões, Cabello — ela diz, mas vejo um pequeno sorriso se curvando ali no canto de seus lábios. E talvez eu também esteja sorrindo quando respondo:

— Sabe, esse hábito de me chamar pelo sobrenome faz parecer que sou sua criada.

Lauren dá risada disso, fechando a tampa da secadora com força e girando os botões no topo.

— Deus, que criada inútil você seria — ela diz enquanto a secadora começa a rugir e sacudir. — Você provavelmente derramaria chá em mim por puro prazer.

Abro um sorriso largo, andando até a longa mesa baixa no meio da sala, onde cestas de toalhas ásperas aguardam para serem dobradas.

— Na verdade, quando eu terminar o colégio aqui, talvez me candidate à função. E me dedique a vida inteira apenas a me vingar de você pelo que aconteceu durante o Desafio.

Estou brincando, mas o sorriso de Lauren se desfaz um pouco quando ela se junta a mim na mesa. Quando ela estende a mão para pegar uma toalha, eu noto que suas unhas estão descascando, duas delas parecem que foram roídas. Princesa Lauren roendo as unhas? Quem poderia imaginar?

— Desculpa por isso — ela diz, finalmente, e então olha para mim. —De verdade.

Limpando a garganta, dou de ombros. Eu não gosto da Lauren sincera. A Lauren volátil que é um pé no saco é muito mais fácil de lidar.

— Eu sei — digo. — E obviamente a gente não morreu, então isso é um bônus.

— Talvez a gente tenha morrido, porque isso certamente parece com o inferno ou, pelo menos, o purgatório — Lauren comenta, tentando dobraruma toalha.

Ela amassa e embola a toalha mais do que dobra e, com um suspiro, eu tiro a toalha de suas mãos.

— Você pode ter razão, já que "Ensine a Princesa a Lavar e Dobrar Roupas" com toda a certeza parece algum tipo de punição dos deuses.

Ela revira os olhos.

— Ah, pobre Cabello, a explorada — ela diz, e eu levanto um dedo.

— Espera, vamos fazer isso do jeito certo. Observe. — Pego a toalha, sacudindo-a e segurando em duas pontas.— A primeira coisa: nós seguramos a toalha assim. Então juntamos essas duas pontas.

Eu mostro a ela, e ela pega outra toalha, imitando meus movimentos. Eu não faço ideia se ela realmente não sabe dobrar uma toalha ou se ela está apenas seguindo o embalo porque é uma distração divertida do trabalho na lavanderia, mas, de qualquer maneira, ela segue obedientemente os mesmos movimentos que eu faço até que restam apenas algumas toalhas na mesa.

— Et voilà — digo com um oreio, então pego outra toalha da pilha e jogo para ela. — Agora vamos ver se a estudante aprendeu.

Lauren me encara e pega a toalha, abrindo-a com um gesto brusco à suafrente.

— Isso não é nada de outro mundo, Cabello.

E então ela dobra a toalha de um jeito desastroso. Tipo, eu não consigo nem descrever o que ela faz porque desafia todas as leis de Deus e da humanidade, e também das toalhas, e solto uma risada, sacudindo acabeça e me aproximando dela.

— Meu Deus do Céu, Sua Alteza Real — provoco. — Você é um desastre real.

Estendendo os braços ao seu redor, pego a toalha, colocando-a de volta em suas mãos. Então, em pé atrás dela, eu guio seus braços nos movimentos corretos.

— Juntando as pontas — digo de novo, trazendo suas mãos para o centro junto com as minhas. E só então percebo o quão perto estou dela, como seus cabelos negros estão caindo sobre seus ombros e praticamente na minha boca. O modo em que estamos ali parece tão... próximo.

Limpo a garganta e dou um passo para trás tão repentino que Lauren deixa a toalha cair.

— Efim, você entendeu — murmuro, voltando para minha pilha. Lauren fica olhando para mim, sua face levemente ruborizada. Deve ser porque está calor aqui embaixo, com as máquinas de lavar e secar industriais deixando tudo mais quente e úmido do que qualquer porão de uma mansão escocesa tem direito de ser.

Nós terminamos de dobrar as toalhas quase em silêncio, e estou indo pegar uma cesta de lençóis quando percebo algo enfiado debaixo da última cesta, bem na ponta da mesa. É uma revista, uma edição antiga que está meio enrugada e apagada por causa da umidade da lavanderia, e acho que quem levou essa punição por último devia estar lendo a revista. Eu a puxo para mim, mais por curiosidade do que outra coisa, e é apenas quando atenho bem na minha frente que vejo Lauren na capa.

Uma manchete enorme com letras amarelas diz: LAUREN FRÍVOLA ATACA NOVAMENTE!, e na foto ela está usando óculos escuros grandes e caminhando em uma rua de paralelepípedos, um braço sobre a barriga e o outro estendido contra os fotógrafos. Nossa.

Eu tento efiaar a revista de volta embaixo da cesta, na esperança deque Lauren esteja focada o suciente em não embolar mais toalhas a ponto de não me notar, mas é claro que ela percebe a movimentação, e antes que eu tenha a chance de esconder a revista novamente, ela está ao meu lado, tirando a revista das minhas mãos.

— Ah — ela diz. — Vejo que alguém tem lido sobre mim. Que lisonjeante.

— Não é minha — respondo, arrumando o cabelo atrás das orelhas. —Eu só encontrei aqui.

— Ah, eu não achei que fosse sua. — Lauren ainda está segurando a revista, observando sua foto, os ombros para trás e o queixo levantado um pouco. É uma pose que estou me acostumando a ver nela. — Deve ser de algum dos nossos outros colegas de classe, eu acho. Mas é uma boa foto. Meu cabelo estava maravilhoso naquele verão.

Eu a encaro. Isso é tudo que ela enxerga na foto? Ela está sendo praticamente caçada pela rua, a manchete sugere que ela é uma encrenqueira ou coisa do gênero, e ela reage com "meu cabelo está bonito"?

Lauren volta para sua própria pilha de roupas, a revista fica entre nós duas. Parece uma serpente venenosa, a revista ali, e eu a observo com cautela. Então olho para Lauren, que está redobrando as toalhas que ela já havia arrumado, seus movimentos estão rígidos.

— Aquilo é sobre o quê? — finalmente pergunto. — Você "atacando novamente"?

Fungando, Lauren joga as toalhas recém-dobradas numa cesta vazia,prontamente desfazendo o trabalho que estava pronto.

— Pra dizer a verdade, eu nem me lembro. Cometi muitos erros naquele verão. — Ela sorri.— Ainda bem que tenho tantas publicações mantendo um registro sobre o que faço.

Lauren passa ao meu lado, carregando a cesta em direção à porta e, quando ela o faz, uma das mãos esbarra na revista e ela cai no chão bem em cima de uma poça do que escorreu dos lençóis molhados.

— Ah, nossa — ela diz. — Que desastrada que eu sou.

Sua Alteza Real {Camren Version}Histórias para pegar e não largar. Descubra agora