Título do capítulo

14 0 0
                                    

  Naquele dia chuvoso de inverno, Kimberly estava sozinha na sua casa senhorial no meio de um bosque.
  Tinha passado as últimas horas a tocar vezes sem conta a mesma peça, a sua preferida. Desde criança que adorava o som do piano, adorava a maneira como flutuava pelo espaço, leve, elegante, inundando-lhe os sentidos. Adorava a especie de transe a que era submetida, o estado de dormência, tudo. Tinha os olhos fechados, o cabelo preto comprido espalhado pelos ombros e os seus dedos longos e finos, brancos como a cera, delizavam e saltitavam ao longo do piano.
  Envolta no som doce do piano, Kimberly não se apercebeu dos passos sorrateiros lá fora, do esmagar das folhas molhadas, do chiar da porta de madeira de carvalho e do homem que entrou em sua casa. O homem era alto e usava um fato preto e uma cartola. Deslizou pelas sombras até a porta da sala onde Kimberly estava a tocar, entrou silenciosamente e sentou-se ao lado de Kimberly, na borda do banco.
  Kimberly parou de tocar com um sobressalto, o rosto branco espelhado de terror, fitando os olhos escuros e cruéis do homem. Com um sorriso troceiro, este levantou a mão enluvada e fez sinal com a cabeça para o piano.
  - Continua - murmurou.
  Estremecendo de terror, Kimberly pousou as mão no piano, inspirou longamente e continuou a tocar. Tinha dificuldade em respirar, como se lhe tivessem posto uma rolha nos pulmões. Sabia, pressentia que algo de terrivel iria acontecer no momento em que a peça chegasse ao fim, mas sentiu uma sensaçao de impotência ao perceber que nada podia fazer, pois o homem de certeza estava ali para matá-la.
  Mas o inevitável acabou por acontecer, e Kimberly soluçou ao tocar a ultima nota, que se prolongou leve e suave pela noite, como a sua sentença de morte.       Mal o som se desvaneceu, o homem tirou uma faca de dentro do fato e, golpeando o ar num feixe de luz com um movimento firme e decidido, espetou-a impiedosamente no coração da rapariga.
  O sangue esguichou, manchando de um vermelho carregado o piano e o fato do homem. As mãos de Kimberly deslizaram das teclas, batendo com um baque no banco e, como que em camara lenta, o corpo da rapariga inclinou-se para trás, tombando pesadamente no chão, deixando para trás um silêncio profundo, quebrado apenas pelo gotejar da chuva na janela e a respiração ofegante do homem

O piano vermelhoOnde histórias criam vida. Descubra agora